A mercê do Estado | Resenha de Renan Damasceno sobre "Estado e cinema no Brasil"

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sábado, 13 de fevereiro de 2016

Pesquisa de Anita Simis sobre cinema brasileiro revela os altos e baixos da produção no país e como os diferentes governos usaram o meio audiovisual

A terceira edição de Estado e cinema no Brasil, ampliada com novos artigos, faz um levantamento com dados estatísticos, documentos e informações de algo pouco abordado, porém essencial, para compreendera evolução do cinema brasileiro: os aspectos políticos relacionados à economia e à legislação cinematográfica, que impactaram no desenvolvimento – e atravancos – do cinema no Brasil ao longo do século passado.

O trabalho de três décadas da socióloga Anita Simis compreende essencialmente a produção cinematográfica entre 1930 e 1966, o que lhe garante um recorte da indústria durante um regime autoritário – a Era Vargas, de 1930 a 1945, marcada por subsídios e pelo cinema como função educativa e de integração nacional, além de propaganda oficial –, e um democrático – entre 1945 e 1964, quando o Brasil teve suas tentativas de estabelecimento sufocadas pela forte presença do cinema norte-americano.  

Além dos dois períodos, o livro traz bom panorama sobre a indústria desde a primeira exibição pública no país, em 1896, coma chegada do primeiro omniographo ao Rio de Janeiro; a penetração do cinema norte-americano, que aproveitou a crise europeia pós-guerra para se expandir – em 1925, 1.065 dos 1.274 filmes exibidos eram dos Estados Unidos –;  até o fim dos anos 1920, quando o cinema, ao lado da imprensa, assumiu funções educativas e culturais, defendido por pensadores como Ruy Barbosa.

Coma bandeira da integração nacional sustentada a partir da década de 1930, o cinema passaria a ter o papel de ordenar e unir as diferentes culturas do país. Datam desse período os primeiros decretos de subsídios à indústria, de obrigatoriedade de exibição e limite de importação, que ajudaram a reeguer a produção nacional. Além disso, foi neste ínterim que nasceu a Distribuidora de Filmes Brasileiros (DFB), e foi criado o Departamento de Propaganda e Difusão Cultural (DPDC), em 1934, que funcionou até 1937. Com o início do Estado Novo, o órgão foi substituído pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), com o cinema assumindo também a função de persuasão para obtenção do controle social. A Cinédia, de Adhemar Gonzaga, foi a mais proeminente produtora da época, apostando em chanchadas e filmes carnavalescos, até seu fechamento, em 1951.

Com o fim da Era Vargas, o cinema brasileiro patinou durante o período democrático. Mesmo com produções de longas pela Vera Cruz (inspirada dos modelos dos grandes estúdios) e Atlântida, com bons públicos, a representatividade dos produtores se diluiu e projetos como o Conselho Nacional de Cinema (CNC), proposto pelo então deputado Jorge Amado, em 1947, não conseguiram manter o mesmo nível de fomento ao cinema nacional. A autora aponta que o resultado foi a falência da indústria nacional, o fechamento dos estúdios e a volta do imenso lucro do cinema norte-americano.

Em 1953, mesmo sendo o décimo país em bilhetes vendidos (250 milhões), o Brasil havia produzido apenas 34 longas – um quarto do México, que vendia a metade de entradas. Uma proposta de tabelamento dos ingressos foi aceita, para que fosse repassada fatia maior aos produtores, e a exibição compulsória voltou a ser usada, inclusive na TV. O Geicine, criado por Jânio Quadros, distribuiu financiamentos, que ajudaram na produção de peças-chave do Cinema Novo, como Vidas secas (1963) e Os fuzis (1965).

Com o golpe militar de 1964, segundo a autora, a produção cinematográfica foi preservada em seus primeiros anos, já que a repressão e voltou primeiramente às forças políticas e sindicatos – tanto que Deus e o diabo na terra do sol foi o indicado para representar o Brasil em Cannes. O livro aborda as primeiras políticas cinematográficas do regime até a criação do Instituto Nacional do Cinema, em 1966.

A autora explica que, embora sempre seja questionada sobre as razões pelas quais não estende o trabalho para pós-1966, seu objetivo não é remontar a história da relação entre cinema e Estado. E sim comparar essa relação em diferentes regimes políticos, o que já está abordado no período escolhido. Para Simis, nem sempre os governantes demonstraram desinteresse pela indústria cinematográfica, sendo que o Estado promoveu diversas intervenções para fomentar a indústria e protegê-la das importações. Por outro lado, a falta de projeto cultural definido, com divergências entre os setores envolvidos e sem sindicatos e associações representativas, fez com que a indústria sempre ficasse dependente da intervenção estatal. Passado meio século desde a fase esmiuçada em Estado e cinema no Brasil, os problemas se fazem atuais, por mostrar as dificuldades de formular um projeto de desenvolvimento para o cinema brasileiro.

ESTADO E CINEMA NO BRASIL ● De Anita Simis ● Unesp ● 304 páginas ● R$ 58 

Resenha publicada no Caderno Pensar, do jornal Estado de Minas, em 12 de fevereiro de 2016. Confira abaixo a publicação original e clique aqui para mais informações sobre a obra.

Resenha sobre Estado e cinema no Brasil no jornal Estado de Minas

Assessoria de imprensa da Fundação Editora da Unesp