Artigo | A "terra da liberdade", sobre o racismo nos Estados Unidos

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segunda-feira, 8 de junho de 2020


MORTE DE GEORGE FLOYD MOTIVA PROTESTOS NOS ESTADOS UNIDOS. FOTO: CHANDAN KHANNA/AFP

Por Vladimir Miguel Rodrigues

A partir do conceito de “mito fundador”, da Prof. Dra. Marilena Chaui, em seu “mito fundador e sociedade autoritária”, é possível realizar uma leitura da História norte-americana. Do ponto de vista da célebre filósofa, “mito fundador” se refere ao primeiro contato que os colonizadores tiveram com o local a ser colonizado. Chauí pensa esse conceito a partir da chegada dos portugueses, definindo nosso mito fundador como “paraíso perdido”. No meu ponto de vista, a fundação do que seriam os EUA, a vinda dos primeiros ingleses, perseguidos religiosamente por serem calvinistas, a chegada às futuras 13 Colônias, representou, no plano da mitologia que se formava, alcançar a “terra da liberdade”.            

Dessa maneira, para Chaui, o mito vai se desenrolando na formação histórica do país, sempre sendo invocado como definição do ethos de um povo, de uma nação. Exemplo disso mostra-se a adoração dos norte-americanos por bradar a sua “liberdade”, seja na luta contra os impostos autoritários, criados pela Inglaterra, os quais resultaram na vitoriosa Guerra de Independência, iniciada no 4 de Julho de 1776, ou então em tantos outros momentos, como durante a 2ª Guerra Mundial e a liderança do “mundo livre” capitalista, durante a Guerra Fria.            

Entretanto, se vivemos em um desencantamento de mundo e os mitos morreram com o esclarecimento, a farsa do mito precisa ser desmascarada a qualquer custo. A História, enquanto ciência, está aí para cumprir seu papel, material, na destruição de todas essas falsas ideias, afinal, o mito se converte, de maneira evidente, em uma ideologia. E como sabemos pela longa tradição marxiana-engelista desde “A ideologia alemã”, a ideologia sempre oculta a realidade. 

Sem dúvida, o mito da “liberdade”, convertido em ideologia máxima na sociedade norte-americana, escondeu o que terrivelmente ocorria naquele país. Um país que se dizia livre, mas construiu sua riqueza não só tomando as terras e executando os nativos, mas também criando um modo de vida material, baseado na escravidão do africano. Um país que incorporou a filosofia iluminista para realizar sua independência, mas que manteve a escravidão como base do seu trabalho, principalmente no sul. Que liberdade é essa, senão um mito, uma ilusão?            

E é aqui que o destino de George Floyd e seus ancestrais e todos os brothers and sisters foram traçados. Veio a 13ª Emenda, em 1865, junto à vitória do Norte sobre o Sul escravista, que defendia a liberdade individual como direito de continuidade da escravidão, desde que, é evidente, eles, brancos, não fossem escravizados. Assim, a isonomia prometida pela lei federal promoveu, na verdade, a conversão dos ex-escravizados em mão de obra barata, enquanto o ranço supremacista sulista tratou de, a partir de seu federalismo, evitar que negros e negras fossem cidadãos por meio das Leis Jim Crow e das execuções da KKK. Os negros trocaram as senzalas pelos guetos e presídios que os encarceravam em massa, além de balançarem nas árvores sulistas como o “fruto estranho” da sociedade norte-americana doente, cantado melancolicamente no clássico de Billie Holliday.            

Paralelamente a isso, em nível federal, o mito fundador convertido em ideologia liberal dominava a cena econômica do país. O american way of life prometia consumo, “frango na panela e um carro na garagem”, como falava o presidente Hoover às vésperas da crise de 1929. Enquanto a maioria da população branca comia, a maioria negra as servia em um racismo institucionalizado. Nada como uma pirotecnia ideológica para ocultar a miséria e opressão em que vivia a massa populacional negra e pobre do país. Veio a 2ª Guerra Mundial e, enquanto a KKK com a coragem de seus encapuzados queimava cruzes e corpos negros no Sul, o governo norte-americano declarava guerra contra os nazifascistas na Europa. Não estaria o próprio nazismo nas terras sulistas?            

Os Aliados venceram a Guerra e o governo dos EUA comemorava e gritava freedom, enquanto, no Alabama, os negros não podiam ir às Universidades devido às leis segregacionistas e, em parte, dos estados tinham o seu direito do voto cerceado. Nessa época, década de 1950, em Minnesota, quando os pais de George Floyd estavam vivos, mesmo distante do epicentro racista do sul, as leis racistas impunham nas escrituras de imóveis dos bairros mais ricos, perto de onde George Floyd foi executado, que negros e negras não poderiam comprar casas.            

Em 1964, a luta do Dr. Martin Luther King Jr., de Malcolm X e tantas outras lideranças conquistou a Lei dos Direitos Civis, acabando, na teoria, com as leis segregacionistas. Foram criadas as ações afirmativas para promover a ascensão da comunidade negra em meio à sociedade de classes, com destaque para a política de cotas raciais nas universidades. A promessa da liberdade chegava, enfim, à população negra, free at last, free at last, como nos spirituals entonados nas igrejas batistas? A lei de Minnesota foi retirada. O racismo pela lei, explicitamente acabou. Mas, as imobiliárias criaram outras maneiras de discriminar. O sistema mudou para continuar o mesmo: os imóveis nos bairros mais desejados passaram a valer mais, impedindo a maioria esmagadora da população negra de ter acesso a esses bens. Só mudou a ótica do racismo: da lei para os salários.            

A década de 1970 viu o law and order de Nixon e sua guerra às drogas destruir o movimento negro, incriminando falsamente lideranças, como Angela Davis, as quais, junto à população dos guetos, foi jogada em um número ainda maior nos presídios do país (ainda hoje os afro-americanos são cerca de 15% da população, mas 40% dos encarcerados, mero acaso?). Some-se a isso a crise econômica que apareceu após os choques do petróleo, provocando um desaparecimento do pouco que havia de bem-estar social no país. Resultado, sem qualquer auxílio governamental, as periferias das grandes cidades dos EUA, da Califórnia a Nova Iorque, repletas de afro-americanos como uma consequência histórica de um racismo institucionalizado, foi atingida duramente por uma verdadeira epidemia de drogas e violência policial, as quais refletiram na Arte com o rap de resistência de NWA na Costa Oeste e do Public Enemy na Costa Leste e o grafite de Basquiat, entre outros. Foi nesse contexto que nasceu e cresceu George Floyd. Com a explosão da violência urbana, os programas policiais cresceram nos anos 1980 por meio da espetacularização das cenas de perseguição à população negra dos guetos, estigmatizando-a. Nesse meio de profunda ausência e de confusão das reais causas do problema, Malcolm X afirmaria:  “Se você não cuidar, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo”.            

A continuação é o que vivemos hoje. Reagan, Bushes, Clinton, Obama, Trump, democratas e republicanos, todos só deram sequência ao racismo histórico, com exceção do primeiro presidente negro da História, mas que pouco teve de condições de mudar a cena racista do país, apesar de sua boa vontade, mas não conseguido devido às próprias estruturas racistas e também federalistas do país: Obama é muito mais um símbolo de esperança e superação do que uma prática para os negros e negras dos EUA. As políticas públicas norte-americanas nas últimas décadas funcionaram, em geral, para o desenvolvimento de um capitalismo ultraliberal, o qual não dá qualquer garantia de que as pessoas de baixa renda e a maioria delas é negra e latina, tenha educação pública a nível superior, saúde pública e moradia digna. Por que afro-americanos dos EUA registram taxas desproporcionalmente altas de infecção e mortalidade pela Covid-19? Além de gritarem “parem de nos matar”, essa população que participa dos protestos, em geral, está cansada de não ter garantia de direitos sociais básicos.

A ideologia diz, “basta que se esforce, este é um país livre, de oportunidades iguais para todos”. Mérito eles dizem. Mesmo com três empregos, nenhum com qualquer garantia, a maior parte da população não consegue ascender. É a uberização. E aí estava George Floyd, um homem negro adulto, pai de família, segurança vivendo de bico em Minneapolis, com uma nota falsa de $20 tentando comprar algo em uma loja qualquer numa região que marca racialmente a cidade entre brancos e negros, quando foi vítima de uma ação terrorista pelos representantes do Estado. 

No fim das contas, a situação está aí, de horror repetido para a população negra e pobre que não aguenta mais não ter a garantia do seu simples direito de existir. O que a sociedade e as instituições governamentais ao redor do mundo, mas especialmente as norte-americanas precisam refletir e responder é: de que maneira vamos alcançar a máxima de Martin Luther King Jr.?, que afirmou: “aprendemos a nadar como peixes, a voar como pássaros, mas não aprendemos a viver como irmãos”. Como mudar a conduta racista de policiais? Como melhorar a qualidade de vida da população negra e pobre? Leis resolvem? Se não souberem responder e, sobretudo, agir, o país continuará entorpecido no sonho profundo do “mito fundador”. Bom para a maioria dos brancos, pesadelo para os negros e negras. 

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Vladimir Miguel Rodrigues, professor e escritor, autor de O X de Malcolm e a questão racial norte-americana (Editora Unesp - disponível para download gratuito) e Filosofia em tempos inquietos (Chiado); é mestre e doutorando em História e Literatura pela Unesp de São José do Rio Preto-SP.

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