Islã: algumas palavras pelo respeito

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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

O respeito a diferentes religiões*
Por José Reinaldo F. Martins

Olhando para o cenário internacional, vivemos em um período de medos e incertezas. Digo isso sobretudo tendo em mente os últimos atentados com vítimas fatais, com frequência predominante nos países do Oriente e do Leste Europeu. O problema é que a irracionalidade de tais acontecimentos chegou também ao primeiro mundo, em grandes potências como Estados Unidos e França (para não dizer outros pequenos focos ocorridos também na Bélgica ou na Inglaterra). O constante temor por novos atentados terroristas tornou-se algo com que o mundo precisou aprender a conviver.

O problema é que aterrorizadas pelas ações de alguns fanáticos religiosos (e por detrás dessa pretensa religiosidade, confessemos, existe uma boa pitada de disputas por poder e domínio político) as pessoas desenvolveram não apenas o medo, mas o preconceito. Em relação ao medo, nos ensinaria um grande autor, é sempre possível determinar o seu ponto de partida, sendo este o seu limite em face de outras emoções, tais como a angústia. Noutras palavras, ter medo é sempre ter medo de algo ou de alguém. Nesse caso, dois foram os focos eleitos para corresponder ao medo generalizado no mundo: os estrangeiros e os muçulmanos.

Em se tratando dos primeiros, em muitos casos o que era temor se transformou em compaixão. Apesar de os últimos atentados terroristas também terem reacendido os velhos sentimentos de repúdio a estrangeiros, muitos países viraram o jogo logo que identificaram um inimigo comum. Como alguém já dizia: “O inimigo do meu inimigo amigo meu se torna.” Nessa situação se enquadraram muitos estrangeiros, refugiados de uma guerra que parece não ter fim e cujos assombros também a nós assombram.

Quanto aos segundos, no entanto, a situação só se complica. O mal disseminado por alguns radicais parece obscurecer a sanidade dos raciocínios. A raiz do nosso medo, nesse caso, ganha uma abrangência muito além de uma simples facção. Dando as costas para o século XX e seus exemplos de quanto mal podemos criar com nossas generalizações apressadas (lembremo-nos o que foi o Nazismo, na Alemanha), o mundo se volta contra um novo bode expiatório – nesse caso, o islã, ironicamente, a religião da paz.

Nessa semana soube das previsões de uma senhora da Bulgária, Baba Vanga, que, apesar de cega desde a juventude, afirma enxergar o futuro do mundo. Segundo suas previsões, neste ano de 2016 a Europa será invadida pelos muçulmanos e deixará de ser como nós a conhecemos. De fato, penso ser plenamente possível que a Europa mude seus traços e deixe de ser o que conhecemos, mas é pouco provável que isso se efetive por culpa dos muçulmanos. Antes, serão os próprios europeus os responsáveis por sua catástrofe, caso deixem-se sucumbir por ideais sectários e pouco tolerantes em relação às diferenças existentes.

Também nessa semana tive contato com um livro cujo título é “O islamismo explicado às crianças”, do autor Tahar Ben Jelloun, um marroquino radicado na França. Cheguei tarde, é verdade, já que o livro foi escrito originalmente em 2002, após os atentados do marcante 11 de setembro de 2001, mas ainda assim em tempo de aprender várias lições. Em se tratando de um livro que tem como direcionamento o público infantil, logo pensei que também eu poderia beneficiar-me de seu conteúdo sem maior esforço – e encontrei bom êxito.

Entre as coisas que me chamaram atenção, recordo-me as passagens do Corão, livro sagrado dos muçulmanos, que fazem referência ao respeito pelas diferentes religiões: “Não existe imposição de religião” (Surata II, 256), ou “você com sua religião e eu com a minha” (Surata CIX, 6). Descobri, então, que o islã é uma religião não apenas de paz, mas de respeito, de modo que o comportamento de uns muito poucos (pouquíssimos, aliás) radicais não podem influenciar a nossa compreensão. Há, inclusive, muitos pontos de semelhança entre cristianismo, judaísmo e o islã, sendo que Abraão, Moisés e Jesus são figuras muito respeitadas pelos mulçumanos.

Em momentos com esses, recordo-me o que certa vez disse a um aluno: “O conhecimento ocupa menos espaço que o preconceito.” De fato, ainda temos muito em nossos horizontes para ser alargado. Ainda que não concordemos em um ou outro aspecto, devemos sempre optar pelo respeito, pela abertura e jamais pelo fechamento. Isso ganha ainda mais força caso nos lembremos que vivemos em uma democracia: “Não estou de acordo com aquilo que dizeis, mas lutarei até o fim para que vos seja possível dizê-lo.” (Voltaire).

Aos que estiverem interessados, o livro ao qual me referi foi publicado no Brasil em 2011, pela Editora Unesp. Pode ser facilmente encontrado na internet ou em alguma livraria.

José Reinaldo F. Martins Filho, mestre em Filosofia (2014) e mestrando em Música, ambos pela UFG, doutorando em Ciências da Religião pela PUC-Goiás.

*Artigo publicado originalmente no jornal Diário da Manhã em 7 de janeiro de 2016. Confira neste link.