Primo Levi fala sobre Auschwitz

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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Em 27 de janeiro, Dia  Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, confira o ensaio Deportados. Aniversário, publicado em A assimetria e a vida, de Primo Levi (páginas 3 a 5).  

Deportados. Aniversário*

Dez anos depois da libertação dos campos de concentração, é triste e significativo constatar que, pelo menos na Itália, o assunto, em vez de ter se tornado história, está caindo no mais completo esquecimento.

Nesta ocasião, é supérfluo lembrar números; lembrar que se tratou da mais gigantesca carnificina da história, a ponto de praticamente reduzir a zero, por exemplo, toda a população de judeus de nações inteiras da Europa Oriental; lembrar que, se a Alemanha nazista tivesse tido as condições de levar seu plano a termo, a técnica experimentada em Auschwitz e em outros lugares teria sido aplicada a continentes inteiros com a conhecida seriedade dos alemães.

Hoje é indelicado falar dos campos de concentração. Corremos o risco de ser acusados de vitimização ou de amor gratuito ao macabro, na melhor das hipóteses; na pior, de mentira pura e simples, ou quem sabe de atentado ao pudor.

É justificado esse silêncio? Devemos tolerá-lo, nós, os sobreviventes? Devem tolerá-lo aqueles que, petrificados pelo espanto e pela repugnância, assistiram às partidas dos vagões vedados, em meio a espancamentos, palavrões e gritos desumanos, e, anos depois, viram o retorno dos pouquíssimos sobreviventes, com o corpo e o espírito em frangalhos? Será justo considerar esgotada a tarefa de dar testemunho, coisa que então era sentida como necessidade e dever imediato?

A resposta só pode ser uma. Não é lícito esquecer, não é lícito calar. Se calarmos, quem falará? Claro que não os culpados e seus cúmplices. Se faltar nosso testemunho, num futuro nada distante os feitos da bestialidade nazista, exatamente por sua enormidade, poderão ser relegados ao rol das lendas. Falar, portanto, é preciso. 

Apesar disso, prevalece o silêncio. Há um silêncio que é fruto da consciência insegura ou mesmo da consciência pesada: é o silêncio daqueles que, solicitados ou obrigados a expressar um juízo, tentam de todas as maneiras mudar o rumo da discussão e trazem à baila as armas nucleares, os bombardeios indiscriminados, o julgamento de Nuremberg e os problemáticos campos de trabalho soviéticos: argumentos que, se de per si não deixam de ter peso, são totalmente irrelevantes para uma justificação moral dos crimes fascistas, que, em vista de suas modalidades e dimensões, constituem um monumento de ferocidade tal que em toda a história da humanidade não é possível encontrar termo de comparação.

Mas não será descabido mencionar outro aspecto desse silêncio, dessa reserva, dessa fuga. Que na Alemanha não se fale do assunto, que os fascistas se calem, é coisa natural que no fundo não nos desagrada. Suas palavras não servem para nada, não devemos esperar deles tentativas risíveis de justificação. Mas que dizer do silêncio do mundo civilizado, do silêncio da cultura, de nosso próprio silêncio, diante de nossos filhos, diante dos amigos que voltam de longos anos de exílio em países distantes? Isso não se deve apenas ao cansaço, à debilitação dos anos, ao comportamento normal de “primeiro viver, depois filosofar”. Não se deve à covardia. Vive em nós uma instância mais profunda, mais digna, que em muitas circunstâncias nos aconselha a calar sobre os campos de concentração ou pelo menos atenuar, censurar suas imagens, ainda tão vivas em nossa memória.

É a vergonha. Somos homens, pertencemos à mesma família humana a que pertenceram nossos carrascos. Diante da enormidade de sua culpa, também nós nos sentimos cidadãos de Sodoma e Gomorra; não conseguimos nos sentir alheios à acusação que algum juiz extraterrestre proferiria contra a humanidade inteira, com base em nosso próprio testemunho.

Somos filhos da Europa onde fica Auschwitz: vivemos no século em que a ciência foi vergada e gerou o código racial e as câmaras de gás. Quem pode ter certeza de estar imune à infecção?

Ainda há o que dizer: coisas dolorosas e duras que não parecerão novas a quem tiver lido Les armes de la nuit [As armas da noite].* É vaidade chamar de gloriosa a morte das inúmeras vítimas dos campos de extermínio. Não era gloriosa: era uma morte inerme e nua, ignominiosa e imunda. Tampouco é honrosa a escravidão; houve quem soubesse suportá-la incólume, exceção que deve ser vista com reverente assombro; mas essa é uma condição essencialmente ignóbil, fonte de degradação quase irresistível e de naufrágio moral.

É bom que essas coisas sejam ditas, pois são verdadeiras. Mas fique claro que não significa irmanar vítimas e assassinos: isso não atenua; ao contrário, agrava mil vezes a culpa de fascistas e nazistas. Estes demonstraram para todos os séculos vindouros as insuspeitadas reservas de ferocidade e loucura que jazem latentes no homem depois de milênios de vida civilizada, e essa é uma obra demoníaca. Trabalharam com tenacidade para criar sua gigantesca máquina geradora de morte e corrupção: não seria imaginável um crime maior. Construíram insolentemente seu reino com os instrumentos  do ódio, da violência e da mentira: a ruína deles é uma advertência. 

Torino, XXXI, n.4, abr. 1955, número especial dedicado ao aniversário de dez anos da Libertação, p.53-4; uma versão mais curta em L’Eco dell’educazione ebraica, número especial para o aniversário de dez anos da Libertação, abr. 1955, p.4.

*É permitida a reprodução desde que citada a fonte. 

Assessoria de Imprensa da Fundação Editora da Unesp