Um dos aspectos que caracterizam a democracia é a separação dos poderes, não apenas do Executivo, Judiciário e Legislativo, mas também dos poderes político, econômico e cultural. A unificação desses poderes em um só homem ou em um só grupo recebe um nome em teoria política: despotismo. Quando Silvio Berlusconi – um dos homens mais ricos da Itália e dono de vários dos mais importantes canais de televisão daquele país – assume o cargo de primeiro-ministro, é exatamente isso que acontece. Percebendo o perigo que o fenômeno berlusconiano representava para a democracia, Bobbio voltou ao debate político, questionando o fato de alguém que tem o quase monopólio das redes de televisão se candidatar a um cargo público, indagando sobre as fontes de financiamento da Força Itália, partido de Berlusconi, e criticando a postura da oposição de esquerda. Como em todos os seus livros, Bobbio, mesmo ao tratar de questões italianas, apresenta lições e análises que se aplicam a muitos problemas com os quais o Brasil se defronta cotidianamente. Debruça-se, por exemplo, sobre a configuração volátil da política partidária, afirmando que os pequenos partidos, nascidos de um dia para outro, estão sempre prontos a se voltar para onde o vento soprar, e que, nesse caso, quanto maior for o número de partidos, mais fracas são as coalizões de governo, pois sua consistência depende do acordo dos partidos que fazem parte delas.
Norberto Bobbio (1909-2004), nascido em Turim (Itália), é um dos principais pensadores políticos europeus. De sua obra, a Editora Unesp publicou Estudos sobre Hegel (1989), Direita e esquerda (1995), Os intelectuais e o poder (1997), Elogio da serenidade (2002), O problema da guerra e as vias da paz (2003), Nem com Marx, nem contra Marx (2006) e Direito e poder (2008), Democracia e segredo (2015).
Os escritos de Norberto Bobbio vão da filosofia do direito à ética e da filosofia política à história das idéias, incluindo temas contemporâneos com lucidez, elegância e admirável coerência filosófica. Neste livro, o filósofo italiano debate o que significa a guerra e como ela pode ser combatida de maneira programática pelos indivíduos. Focaliza ainda quais são os melhores caminhos para os movimentos pacifistas em relação a uma atividade política que propicie o diálogo entre as mais diferentes tendências e que tenha como grande objetivo a eliminação das guerras internas e entre as nações.
Nesta obra, Bobbio visita a obra seminal de Kelsen, influência constante de todo o seu pensamento político e jurídico. Nessa trajetória, temas centrais como o estabelecimento de um sistema legal internacional são devidamente abordados com as costumeiras originalidade e profundidade que sempre caracterizaram o mestre italiano.
Nestes ensaios, o autor procura analisar o aspecto jurídico-político da filosofia de Hegel. Para Bobbio, a teoria hegeliana do Estado como momento positivo e superior do desenvolvimento histórico da humanidade é uma continuação da tradição jusnaturalista moderna, iniciada com Hobbes. Dessa forma, a interação hegeliana entre Estado e sociedade civil só poderia ser compreendida à luz do Leviatã hobbesiano, que evidenciaria uma operação propriamente dialética de afirmação e negação da tradição hobbesiana por Hegel.
A relação entre os intelectuais e a política jamais deixou de estar no centro das atenções. Com o que ficar: com a verdade do conhecimento ou com os fatos do poder; com as dúvidas "pessimistas" da razão crítica ou com as certezas quase sempre "otimistas" da vontade política? É sobre perguntas como essas que o autor se debruça. O pensamento político e a análise da cultura são convocados em conjunto para dar um diagnóstico de algumas das questões mais importantes da sociedade contemporânea.
Este livro, organizado por Carlo Violi, reune um número consistente de textos de Norberto Bobbio, fruto de seus intermitentes encontros com Marx e com o marxismo. O autor explica que ao longo de conquenta anos de estudos, seu interesse por Marx jamais arrefeceu, ainda que tenha se limitado mais ao tema do Estado e tenha sempre permanecido no âmbito da filosofia política. Em seus escritos duas linhas sempre sobressaíram: o debate em defesa dos direitos de liberdade da tradição liberal, que os comunistas tinham repudiado, entre 1951 e 1955; e o debate em defesa do Estado de direito e democrático entre 1972 e 1976. Em ambos os casos o alvo foi a teoria marxiana do Estado, do Estado enquanto tal e portanto de todos os Estados reais, considerados como ditaduras.