Annie Ernaux e Rose-Marie Lagrave confrontam classe, gênero e memória em 'Uma conversa'

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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Escritora vencedora do Nobel e socióloga francesa revisitam trajetórias marcadas pela mudança de classe e discutem como origem social, feminismo e relações de poder atravessam a experiência individual  

O que acontece quando alguém deixa o meio social em que nasceu sem jamais se desvincular completamente dele? Para Annie Ernaux e Rose-Marie Lagrave, essa experiência atravessou não apenas suas trajetórias pessoais, mas também suas formas de escrever e interpretar o mundo. Em Uma conversa, lançamento da Editora Unesp com tradução de Mariana Echalar, a escritora e a socióloga colocam em diálogo memória, classe e gênero para examinar as marcas deixadas pelo trânsito entre diferentes universos sociais.

A aproximação entre as duas remonta aos anos 1970, mas o livro nasceu de um encontro realizado em 2021 e posteriormente ampliado, preservando a fluidez de uma conversa entre amigas. Nascidas na mesma geração e na zona rural da Normandia, Ernaux e Lagrave reconhecem uma na outra experiências semelhantes de deslocamento social, ainda que tenham percorrido caminhos distintos. A escola, a família, a religião, o trabalho e o acesso à cultura aparecem como espaços de transformação, mas também de constrangimento e aprendizado das hierarquias sociais.

A literatura de Ernaux e a sociologia de Lagrave partem, assim, de uma questão comum: de que maneira aquilo que parece pertencer exclusivamente à intimidade é produzido por relações sociais mais amplas? Como observam Sarah Carlotta Hechler, Claire Mélot e Claire Tomasella na apresentação do volume, “a literatura e as ciências sociais são dois níveis inseparáveis” na reflexão das duas autoras. Suas experiências pessoais tornam-se matéria para investigar mecanismos de dominação que envolvem origem social, gênero e as expectativas impostas às mulheres de sua geração.

A mudança de classe ocupa um lugar central nesse percurso. Ernaux recorda a distância progressiva em relação ao universo dos pais, comerciantes de origem operária, e as formas de violência simbólica experimentadas na escola. Lagrave, por sua vez, recupera a trajetória de uma família numerosa marcada pelo rebaixamento social e sua entrada posterior no ambiente acadêmico. Ambas colocam sob suspeita explicações baseadas exclusivamente no mérito individual e investigam as condições históricas e institucionais que tornaram possíveis suas próprias trajetórias.

O gênero acrescenta outra dimensão a essa experiência. As autoras discutem a divisão sexual do trabalho, a maternidade, o casamento, a sexualidade e o contato com o movimento feminista. Lagrave rememora sua militância no Mouvement de Libération des Femmes e a progressiva incorporação do feminismo à sua produção acadêmica; Ernaux retoma episódios que também atravessariam livros como O lugar, A vergonha, A mulher suspensa e O acontecimento. Classe e gênero, mostram as duas, não funcionam como dimensões independentes: estão profundamente imbricados na maneira como cada indivíduo ocupa e percebe seu lugar na sociedade.

Essa articulação é também o que aproxima dois campos frequentemente tratados de maneira separada. De um lado, Ernaux transforma a memória individual em instrumento de investigação das estruturas sociais; de outro, Lagrave mobiliza a sociologia sem retirar da experiência vivida sua dimensão subjetiva. Para as autoras da apresentação, ambas conseguem trazer à superfície “o caráter coletivo de uma vivência singular em dado contexto social e histórico”. O resultado é uma conversa em que biografia e análise social se iluminam mutuamente e na qual compreender a própria trajetória significa também examinar as relações de poder que a constituíram.  

Sobre as autoras  

Annie Ernaux é uma das escritoras mais importantes da literatura contemporânea e recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2022. Criadora de um estilo que une memória pessoal e análise sociológica, suas obras investigam temas como a ascensão social, o corpo e a condição feminina.  

Rose-Marie Lagrave é socióloga e diretora de estudos na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS). Especialista em questões de gênero e trajetórias de classe, sua produção intelectual é marcada pelo cruzamento entre a pesquisa acadêmica e a reflexão sobre as desigualdades sociais.  

Título: Uma conversa
Autoras: Annie Ernaux, Rose-Marie Lagrave
Tradução: Mariana Echalar
Apresentação: Sarah Carlotta Hechler, Claire Mélot, Claire Tomasella
Posfácio: Paul Pasquali
Páginas: 152
Formato: 11 x 18 cm
Preço: R$ 54
ISBN: 978-65-5711-354-7

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