Em entrevista ao canal da Editora Unesp, co-organizadora de Coligações e disputas eleitorais na Nova República discute os bastidores da competição eleitoral brasileira
A campanha eleitoral de 2026 começou oficialmente nesta semana e, com ela, entram em cena não apenas candidatos, discursos e pesquisas, mas também alianças partidárias, federações, coligações, tempo de propaganda, estratégias digitais e uso de inteligência artificial. Para discutir esse cenário, o canal da Editora Unesp conversa com Silvana Krause, professora e uma das organizadoras de Coligações e disputas eleitorais na Nova República, obra publicada pela Editora Unesp em coedição com a Fundação Konrad Adenauer.
Na entrevista, Silvana observa que a disputa presidencial de 2026 (primeiro turno no dia 4 de outubro e segundo turno no dia 26 do mesmo mês) combina permanências da política brasileira com mudanças provocadas por reformas recentes no sistema eleitoral. Entre os elementos de continuidade, ela destaca a dificuldade histórica do campo da direita de construir lideranças nacionais coesas e fortemente organizadas em partidos. “A nossa direita tem muita dificuldade de uma coesão de ação nacional”, afirma. Para a pesquisadora, esse campo mantém forte enraizamento regional, o que ajuda a explicar a formação de palanques híbridos e alianças estaduais distintas entre si.
A professora também analisa os efeitos do fim das coligações nas eleições proporcionais e da criação das federações partidárias. Segundo ela, as federações preservam a lógica de reunir forças para disputar eleições, mas introduzem uma exigência que não existia nas coligações proporcionais: a atuação conjunta durante o mandato. Esse novo formato, avalia Silvana, tornou mais visível a dificuldade de parte dos partidos de direita em sustentar compromissos programáticos nacionais, ao mesmo tempo em que reforçou a aposta no Legislativo em um cenário de enfraquecimento do presidencialismo de coalizão.
Outro ponto da conversa é a forma como o público lê as pesquisas eleitorais. Para Silvana, levantamentos de intenção de voto não devem ser tratados nem como previsão infalível nem como manipulação automática. Ela chama atenção para o modo como a polarização interfere na interpretação desses dados e ressalta que, do ponto de vista da ciência política, o Brasil não vive uma disputa entre extrema esquerda e extrema direita, mas entre extrema direita e centro-esquerda, muitas vezes articulada a setores da direita tradicional.
A entrevista aborda ainda o uso da inteligência artificial nas campanhas. Silvana pondera que o fenômeno ainda é recente e que seus efeitos sobre o comportamento eleitoral não estão plenamente compreendidos. Ainda assim, alerta que a IA tende a aprofundar um problema já existente: a produção de mensagens cada vez mais ajustadas às crenças e desejos prévios dos eleitores. “A IA vai reforçar isso”, afirma. Para a pesquisadora, esse processo pode agravar a fragmentação da esfera pública e dificultar a construção de consensos mínimos, condição essencial para a democracia.
Ao aproximar o debate eleitoral de uma reflexão mais ampla sobre a Nova República, a entrevista mostra que eleições não se decidem apenas na superfície da disputa pública. Elas são moldadas por regras institucionais, arranjos partidários, interesses regionais, recursos de campanha, estratégias de comunicação e disputas pela própria interpretação da realidade política.
Assista à entrevista completa no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=BRZm86p7odc
Confira a íntegra da entrevista em texto:
Diego Moura: Hoje, aqui no canal da Editora Unesp no YouTube, a gente vai conversar com Silvana Krause, professora e uma das organizadoras do livro Coligações e disputas eleitorais na Nova República, uma obra publicada pela Editora Unesp em coedição com a Fundação Konrad Adenauer, que ajuda a compreender um dos aspectos menos visíveis, mas muito decisivos da política brasileira, que é a construção das alianças eleitorais.
A campanha de 2026 começou oficialmente nesta semana e, com ela, entram em cena não apenas os candidatos, os discursos, as pesquisas, mas também os arranjos partidários, as federações, as coligações, o tempo de propaganda, as estratégias digitais, o uso de inteligência artificial e as disputas pela interpretação do próprio cenário eleitoral.
Mais do que a gente se perguntar apenas sobre quem está na frente nas pesquisas, a conversa de hoje busca entender como a eleição está sendo organizada, quais forças sustentam as candidaturas e o que essas alianças revelam sobre a Nova República em mais um momento de forte polarização política.
Professora, muito obrigado pela sua disponibilidade em conversar com a gente.
Silvana Krause: Eu que agradeço, Diego, a oportunidade de poder divulgar os trabalhos que a gente faz há muito tempo.
D.M.: Legal, professora. A campanha eleitoral começou oficialmente nesta semana. A gente teve já dois eventos grandes dos dois principais candidatos que estão à frente nas pesquisas, o atual presidente, Lula, e Flávio Bolsonaro, lançando suas candidaturas em seus redutos eleitorais. Qual é a sua primeira leitura sobre o desenho da disputa de 2026? O que já é possível perceber ou extrair dos principais campos políticos, das alianças e dos cálculos partidários que estão sendo feitos?
S.K.: Muito bem. Eu avalio que há um mix de uma tradição que se mantém com mudanças muito significativas, inclusive devido a uma série de reformas do sistema eleitoral brasileiro e da própria legislação sobre coligações nas eleições proporcionais, que criou uma nova realidade de fusões e de federações.
O que mais me chama a atenção, do ponto de vista de uma eleição majoritária, de uma eleição presidencial, é que a gente mais uma vez observa a dificuldade do campo da direita. Eu digo campo da direita em sentido amplo, desde a assim chamada extrema direita até a direita moderada, como a literatura classifica.
Em todo o histórico da nossa nova democracia brasileira, a gente observa que o campo da direita, quando apresenta um candidato, é um candidato que se coloca como outsider, que não tem uma grande tradição dentro de um partido. Primeiro, Collor de Mello, nesse sentido. Depois, vamos ter a era PSDB, que é outra era, com Fernando Henrique Cardoso, centro-esquerda, centro-direita. Com Lula, isso fica igual. Surge de novo uma candidatura à direita, mas agora com um perfil de extrema direita, desde 2018.
A gente tem esse tipo de característica: um perfil de candidato que não tem uma trajetória organizacional consolidada em termos de partidos. Isso, para mim, é um sintoma claro de que a nossa direita tem muita dificuldade de uma coesão de ação nacional.
Ela é muito mais focada numa tradição de políticas regionais. Isso a gente pode perceber bem nessa dificuldade de construção de uma liderança coesa nacional. Você tem uma série de lideranças tradicionais do campo da direita que agora não se associam e não querem estar em nenhum lugar, nem com um candidato, nem com outro.
Isso é um sintoma. A expectativa do campo da extrema direita bolsonarista era trazer esse campo da direita moderada, da direita tradicional, para o seu campo mais à extrema direita, porque essa foi a opção em 2018 de uma série de ramos da direita tradicional brasileira, que não tem essa capacidade de organização de uma liderança nacional coesa.
Ela volta para trás e você tem alianças regionais completamente distintas uma da outra, com palanques híbridos. Essa é a nossa tradição.
Nós temos algumas novidades também. O impacto da proibição das coligações em eleições proporcionais. Os atores brasileiros são muito criativos. Toda a discussão sobre as coligações nas eleições proporcionais era sobre o quanto elas eram também muito responsáveis pela fragmentação do Poder Legislativo. Então, houve uma preocupação em dificultar, proibir essas alianças nas eleições proporcionais e também criar, por exemplo, a cláusula de barreira, que cada vez mais vai subir.
Os atores são muito criativos e eles vão sobreviver. Vieram as federações. Primeiro, no campo da esquerda, com menos dificuldade de fazer coesões maiores. Logo que as federações foram legalizadas, elas foram criadas muito mais no campo da esquerda. E agora tivemos uma federação dentro do campo da direita para eleições proporcionais. Isso é uma reação.
Acho que, neste ano, isso vai ser reforçado. A gente está percebendo uma preocupação em apostar no Legislativo. E por que se aposta no Legislativo? Pelo empoderamento que o Legislativo tem tido no nosso sistema político. Então, para que apostar no Executivo nacional? Isso pode ser apostado depois.
Isso enfraquece, é um sintoma do enfraquecimento do chamado presidencialismo de coalizão brasileiro, que foi uma saída que tivemos de negociação de governos amplos, porque nenhum presidente da República teve seu partido com maioria no Congresso.
D.M.: Ótimo, professora. A gente vê justamente essa crise do presidencialismo de coalizão, só para puxar um dos assuntos, com as emendas parlamentares, que ganham um vulto cada vez maior. A senhora acredita que, para esta próxima eleição, a tendência é que esse cenário se intensifique, esse empoderamento do Legislativo?
S.K.: Nós temos uma eleição para o Senado com disputa por duas vagas por estado. Isso pode trazer novidades. Vamos ter que ver, porque o eleitor brasileiro não vota em partidos, ele vota em pessoas, por inúmeras razões. Então, é possível a gente ter um Senado menos na extrema direita, como tivemos na eleição de 2022. Vamos ver.
Agora, uma coisa interessante que precisamos refletir: sempre falamos de uma concentração de poder Executivo que tivemos no regime civil-militar, mas, de fato, existe uma outra tradição para a qual temos que começar a prestar atenção.
O nosso Legislativo sempre foi mais conservador. São as oligarquias estaduais, pelo próprio sistema eleitoral. E temos um Executivo mais propenso a reformas, reformas estruturantes, reformas sociais, enfim. O pré-1964 foi isso. Você tinha um Legislativo não reformador, um Legislativo conservador, e um Executivo nas mãos de João Goulart, do PTB, que para a época era reformista.
Então, esse conflito entre Legislativo e Executivo, um Legislativo mais conservador e um Executivo com voto pessoal, com voto não partidário, com o carisma de uma liderança mais progressista, é uma tradição que também podemos observar. E hoje vemos o enfraquecimento do Poder Executivo brasileiro.
Essa não era uma previsão feita por uma série de cientistas políticos que avaliavam que o grande problema das democracias na América Latina, das novas democracias, era a existência de uma concentração muito forte de poder no Executivo e que deveria haver maior equilíbrio. Hoje, estamos vendo que todos esses diagnósticos feitos nos anos 1990 começam a trazer outras variáveis e outras dimensões.
D.M.: Certo. A senhora já comentou sobre as coligações serem permitidas nas eleições majoritárias e não nas proporcionais. Então, primeiro, gostaria que a senhora fizesse uma diferenciação básica entre coligação e federação. E queria entender se essa mudança tornou o sistema mais coerente ou se simplesmente deslocou as negociações para outro formato.
S.K.: Vamos lá. O grande problema das coligações era nas eleições proporcionais. Pelo cálculo do quociente eleitoral, era o voto pessoal que era valorizado dentro de uma coligação, e não o voto daquele partido dentro da coligação que mais teve voto.
Você tinha uma candidatura em um pequeno partido que tirava representação de um partido que teve muito mais votos, mas cujo candidato individualmente não tinha tantos votos quanto outro candidato da mesma aliança. Isso era um problema de distorção da representação, um dos problemas, e por isso se fez essa transformação.
Até porque essas coligações faziam um pacto meramente eleitoral. Depois da vitória ou depois da aquisição de representação na eleição proporcional, cada partido tomava seu rumo. Não havia exigência de ação comum, não havia prejuízo se alguém tomasse posições completamente diferentes, não havia compromisso nenhum.
A ideia das federações veio, se observarmos o debate sobre as federações no próprio Congresso, da própria centro-esquerda, principalmente do PT, pressionado, como é normal, faz parte da disputa política, por minorias partidárias que diziam que pequenos partidos também têm que ter chance de um dia se tornar maioria. Se tudo for completamente eliminado, os pequenos partidos nunca terão representação.
Então, criou-se o princípio da minoria. Faz sentido resguardar, mas agora essa minoria que se alia a outro partido com maior potencial vai ter que ser obrigada a ficar junto durante o mandato em que foi eleita. Isso é a federação.
A federação tem a mesma dinâmica, no sentido de juntar forças para conseguir o consenso eleitoral, mas agora com uma exigência. Os partidos precisam ter regras. Isso ainda precisa amadurecer na própria legislação sobre as federações, mas é um elemento que cria compromisso.
Isso é interessante porque o bloco da direita foi o que teve mais dificuldade de criar federações. Elas têm pouca consistência programática e ideológica. São muito mais carreiras regionais e locais, com pouca consistência de um projeto maior, minimamente consistente, de projeto de nação.
Isso tem a ver também com o que eu disse anteriormente: a dificuldade do campo da direita de ter uma liderança nacional que não seja fora de um padrão que se venda como outsider. Você não tem partidos como PP ou DEM, por exemplo, com uma liderança que vem de uma caminhada, que é conhecida nacionalmente e tem capacidade de coesão nacional em função de um projeto maior. Isso é algo que o PT conseguiu, para o bem ou para o mal. Essa é outra discussão.
D.M.: Perfeito, professora. A senhora até já comentou um pouco disso, que a disputa nacional acaba se organizando por meio da esfera estadual. O estadual e o local acabam tendo um peso muito maior.
S.K.: Essa é a nossa alma, a nossa tradição, que vem da República Velha, talvez até do Império. As nossas eleições nascem nos municípios. As primeiras eleições no país, no período imperial, dizem alguma coisa. A política nasce muito no município.
D.M.: Ainda faz sentido falar em Nova República neste período em que estamos? Ou a gente já está caminhando para uma nova Nova República? Sei que é difícil, para quem está inserido dentro do próprio tempo, fazer essas leituras. É muito mais tranquilo olhar para o passado e dizer que um período se concluiu. Mas a senhora enxerga que já estamos caminhando para uma nova Nova República?
S.K.: Eu não diria isso. A ciência política normalmente usa o conceito de Nova República como um período de construção de um regime político pós-regime civil-militar. Essa é a Nova República. A menos que tivéssemos agora um novo sistema político por um golpe, aí terminaria a tal da Nova República, assim como tivemos a República Velha.
Então, o termo “nova” normalmente não é usado pelos cientistas políticos no sentido de tempo de existência, mas no sentido de fases políticas. Hoje eu diria que ela continua com essa expressão, a Nova República, não porque seja nova no sentido de idade, mas porque é um sistema político construído a partir da Constituição de 1988 e da transição política do regime civil-militar.
Essa é a minha posição quando uso o termo Nova República, e a maioria dos cientistas políticos tende a usar dessa forma. Ela continua. Podemos ter outra configuração de partidos, mas a Nova República continua. Essa é minha avaliação.
D.M.: Agora passando a falar sobre pesquisas eleitorais. Praticamente todos os dias temos visto novos dados sendo divulgados, levantamentos sendo feitos, e isso obviamente, em alguma medida, ajuda a construir uma percepção da viabilidade das candidaturas. Como o público poderia ou deveria ler esses levantamentos sem tratar essas pesquisas como previsão infalível ou como manipulação? A senhora até comentou a questão da polarização, e as pesquisas eleitorais caíram nesse abismo da polarização. Que atenção o leitor tem que ter ao analisar ou tomar contato com essas informações?
S.K.: São vários pontos. É uma dificuldade o eleitor não entender o sistema político, mas querer votar. Ele quer ter o direito de votar, mas não sabe o que é um sistema eleitoral, um sistema partidário, voto de lista aberta, voto de lista fechada, enfim. Mas ele quer ter direito ao voto, evidentemente.
Eu diria o seguinte: essas pesquisas, o cidadão comum tem muita dificuldade de entender. E a expectativa que muitas vezes se tem a respeito de uma pesquisa de avaliação de intenção de voto é muito equivocada em relação ao que a opinião pública entende sobre isso.
Também vou dizer que as mídias e as redes sociais têm uma certa responsabilidade por isso, intencionalmente em alguns casos, e em outros não intencionalmente.
Por exemplo: polarização. Nós não estamos numa polarização ideológica. Nós não estamos entre uma extrema esquerda e uma extrema direita. Estamos entre uma extrema direita e uma centro-esquerda. Às vezes, até com coalizões com a direita, com apoio da direita mais tradicional.
Então, isso tem sentido de marketing político, de estratégia política, inclusive desses setores considerados de extrema direita: dizer que estamos em dois polos, “não deixe que a extrema esquerda assuma”. Mas nós não estamos nesse cenário.
Em termos de ciência política, o que se classifica como extrema esquerda hoje no Brasil são partidos que nem representação política têm no Parlamento. Então, já começa por um grande equívoco. Temos que fazer a pergunta: qual polarização? Esse é o primeiro ponto.
O segundo problema é quando analisamos o eleitor nas pesquisas de intenção de voto e perguntamos como ele se autoclassifica. Temos que ter muito cuidado com o que queremos desse eleitor. Queremos simplesmente ver a percepção dele. Agora, se ele sabe o que é ser esquerda, centro, direita, é outra discussão.
Numa pesquisa de intenção de voto, isso não interessa da mesma forma. Interessa, a depender do que o pesquisador quer, evidentemente, como o eleitor vê e como associa quem com quem. Não significa que ele saiba que um programa de centro-esquerda precisa ter tais e tais plataformas. Ele escuta e diz: “eu sou de extrema direita”, “eu sou de extrema esquerda”, “eu sou do centro”, “eu sou da direita”. Ele absorve a mídia e reproduz a opinião pública comum.
Então, ele não tem filtro. Mas, em termos de avaliação, em termos de estratégia política, é evidente: se vamos olhar toda uma tradição política brasileira anticomunista, que vem desde os anos 1930 e do pré-1964, falar que estamos entre extrema direita e extrema esquerda tem sentido para mobilizar aquele eleitor.
Colocar um candidato, Lula, no caso, como candidato da esquerda tem esse uso. Eu repito muitas vezes: nós nunca tivemos um governo de esquerda, nem um governo petista. Quem fala isso não conhece que, desde o período pós-impeachment do Collor, tivemos governos de coalizão, que são uma adaptação no sistema presidencialista com uma certa lógica parlamentarista: trazer os partidos no Parlamento para dentro do Executivo.
Então, nenhum partido do presidente, como disse anteriormente, teve maioria. Ele chama para o governo. Nós não tivemos um governo do PT. Isso é um grande equívoco. De novo, há uma intenção de marketing, é evidente.
D.M.: Outro aspecto que está muito em voga nesta disputa eleitoral, talvez mais do que em todas as outras, é o uso da inteligência artificial nas eleições. Tivemos recentemente o episódio da convenção do PL, em que foi utilizado aquele vídeo do Jair Bolsonaro com inteligência artificial, e aí entrou uma discussão: é autorizado, não é autorizado, o que se pode fazer? Do seu ponto de vista, a IA vai mudar só a comunicação da campanha ou tem poder de alterar realmente o desempenho eleitoral de um candidato? Tivemos episódios anteriores que hoje parecem até menores, de manipulação de folhetos, na eleição de Dilma e Serra, a questão do aborto, enfim. Hoje temos esse grande gigante da inteligência artificial. Como a senhora enxerga isso?
S.K.: Temos que ter muito cuidado, porque ainda é um fenômeno novo. Não temos condições de entender muito bem como o eleitor recebe esse tipo de debate e esse tipo de retórica que os candidatos usam, como você mencionou, de trazer uma IA mostrando que era o pai do candidato Bolsonaro em uma convenção. Não temos ainda clareza das consequências disso.
Talvez eu diria que uma coisa me parece cada vez mais perceptível: o eleitor vai acreditar naquilo que quer, naquilo que já tem de predisposição. E a IA vai reforçar isso. A IA vai facilitar.
Você conhece o seu eleitor como candidato e vai criar justamente retóricas e narrativas para vender aquilo que ele quer acreditar. Você não vai vender aquilo em que ele não quer acreditar, porque isso não ganha voto. E a IA vai aprofundar esse problema.
Num momento cada vez maior de fragmentação do eleitor, e isso não é só no caso brasileiro, esse é um problema seríssimo para a democracia. Um problema seríssimo, porque a democracia parte do pressuposto de que você precisa ter o mínimo de consenso a respeito de elementos que acontecem na vida de uma sociedade.
Quando esses elementos não têm uma referência segura, e a IA produz isso para o eleitor, principalmente para o eleitor — e nem precisa ser um eleitor pouco educado, porque isso é uma questão afetiva mesmo —, ele acredita no que quer que seja verdade.
Sempre digo que parece até um processo de infantilização do eleitor. É como se houvesse uma regressão freudiana, de retrocesso, de imaturidade, em que o desejo precisa ser satisfeito imediatamente. Então, você vira uma criança. É uma infantilização da política.
Porque, sempre digo, a política por natureza é frustrante, e sempre vai ser. Ela não vai ser o teu desejo. E se você acha que ela é o teu desejo, então você ainda está na fase infantil, com todas as frustrações que a gente tem, e frustrações com toda razão, muitas vezes. Mas não é assim.
D.M.: Professora, mais uma vez agradeço pela sua disponibilidade. Acho que é uma discussão que está só começando. Ainda teremos longos meses, ou melhor, cerca de 45 dias até o primeiro turno das eleições.
S.K.: É verdade, já estamos no meio de agosto. São 45 dias de campanha.
D.M.: O primeiro turno é em 4 de outubro, e o segundo turno, em 25 de outubro. Então tá bom. Professora, muito obrigado. Um grande abraço.
S.K.: Eu que agradeço o convite. Tchau.
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Assessoria de Imprensa da Fundação Editora da Unesp
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