Em entrevista à Editora Unesp, tradutor de Ensaios sobre democracia e representação política analisa participação popular, formação da opinião pública e os riscos de erosão das instituições democráticas
Democracia e representação política parecem hoje duas ideias necessariamente associadas, mas essa aproximação é resultado de um longo processo histórico. É a partir dessa tensão que John Stuart Mill desenvolve os textos reunidos em Ensaios sobre democracia e representação política, lançamento da Editora Unesp com tradução e apresentação de Gustavo Hessmann Dalaqua.
Os ensaios, inéditos em português, mostram Mill dialogando com A democracia na América, de Alexis de Tocqueville, e intervindo nos debates sobre a reforma do sistema representativo inglês do século XIX. Mais do que refletir sobre eleições, o filósofo procura compreender de que maneira instituições originalmente oligárquicas poderiam ser democratizadas e transformadas em instrumentos efetivos de participação política.
Em entrevista à Editora Unesp, Dalaqua destaca justamente a atualidade dessa questão. Para ele, recuperar o pensamento de Mill permite perceber que a existência de instituições representativas não garante, por si só, uma democracia plena. “A gente também precisa democratizar a representação que costuma ser praticada”, afirma.
Um dos pontos centrais da conversa é a influência exercida por Tocqueville sobre Mill. Ao observar as instituições locais dos Estados Unidos, o pensador francês encontrou experiências que combinavam representação e participação direta dos cidadãos. Essa articulação ajudou Mill a imaginar uma forma de governo representativo capaz de operar democraticamente — algo que, no contexto político europeu de seu tempo, estava longe de ser evidente.
Dalaqua chama atenção também para uma dimensão pouco considerada pelos dois autores: a influência de práticas políticas de povos ameríndios sobre experiências institucionais norte-americanas. Ele menciona particularmente a Confederação dos Iroqueses, na qual representantes estavam sujeitos à opinião das comunidades e podiam ser destituídos, ao mesmo tempo em que membros da coletividade participavam da definição das pautas políticas.
A participação ocupa lugar decisivo no pensamento de Mill também por seu caráter formativo. A democracia não deveria funcionar apenas como um procedimento para escolher governantes. Ao participar de espaços deliberativos e entrar em contato com perspectivas sociais distintas, os cidadãos ampliariam sua compreensão dos problemas políticos. Essa seria, segundo Dalaqua, a “pedagogia democrática” presente no filósofo inglês.
A discussão ganha especial atualidade diante da fragmentação dos espaços públicos e do papel das redes sociais. Dalaqua aponta uma crescente atomização da sociedade e um enfraquecimento dos ambientes em que diferentes grupos podem discutir diretamente suas posições. Para ele, uma democracia representativa depende não apenas do momento eleitoral, mas de todo o processo anterior de formação da opinião pública.
“A decisão eleitoral é a ponta do iceberg”, afirma. Se a informação que circula na esfera pública é distorcida, pouco plural ou submetida a processos de manipulação, torna-se necessário perguntar até que ponto a escolha realizada nas urnas expressa efetivamente uma participação democrática.
Outro tema abordado é aquilo que Mill enxergava como o risco de um “suicídio democrático”: a possibilidade de que os próprios mecanismos da democracia levem ao poder forças capazes de destruir ou restringir as instituições que permitiram sua ascensão. Dalaqua aproxima essa preocupação dos debates contemporâneos sobre erosão, regressão, desconsolidação e desdemocratização.
A entrevista aborda ainda o trabalho de tradução dos ensaios. Segundo Dalaqua, o principal desafio esteve na pontuação de Mill, marcada por períodos longos e uso frequente de ponto e vírgula. A tradução exigiu uma segunda etapa de adaptação da pontuação para tornar a leitura mais fluente em português sem alterar a argumentação do autor.
Ao final, diante da pergunta sobre qual questão de Mill seria mais urgente para as democracias contemporâneas, Dalaqua não hesita: “Como evitar o suicídio democrático?”. Uma pergunta formulada a partir dos conflitos políticos do século XIX, mas que continua atravessando as sociedades do século XXI.
Assista à entrevista completa abaixo e leia a transcrição depois do vídeo:
https://www.youtube.com/watch?v=AFNGpjMGu0g
Íntegra da entrevista
Diego Moura — Hoje conversamos com Gustavo Hessmann Dalaqua, tradutor e apresentador de Ensaios sobre democracia e representação política, de John Stuart Mill, lançamento da Editora Unesp.
Considerado um dos principais pensadores ingleses do século XIX, Mill participou de debates decisivos sobre liberdade, governo, participação política e os limites do poder. Nessa coletânea, democracia e representação aparecem não como conceitos naturalmente unidos, mas como tradições que foram se aproximando historicamente em meio a disputas sobre quem deve ser representado, como o poder deve ser distribuído e quais condições tornam uma democracia efetivamente participativa.
Os textos reunidos no volume partem, em parte, do diálogo de Mill com A democracia na América, de Alexis de Tocqueville, e avançam para temas que continuam muito presentes no debate político atual: representação proporcional, participação popular, concentração de poder, inclusão política e formação democrática dos cidadãos.
Nesta entrevista, vamos conversar com o professor Gustavo sobre a atualidade de John Stuart Mill, os desafios de traduzir o pensamento político do século XIX para o leitor de hoje e as perguntas que esses ensaios ainda lançam sobre as democracias contemporâneas.
Professor, muito obrigado pela disponibilidade em conversar com a gente.
Gustavo Hessman Dalaqua — Eu que agradeço, Diego. Também queria agradecer ao pessoal da Editora Unesp por conceder esse espaço.
É muito importante a gente ter essas conversas, principalmente neste momento.
DM — Democracia e representação política parecem conceitos meio que inseparáveis hoje. Mas o livro mostra que essa aproximação foi construída historicamente.
Por que é importante recuperar esse debate, sobretudo agora que estamos nesse momento entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais? Por que é importante recuperar esse debate em John Stuart Mill?
GHD — Primeiro, eu só queria problematizar um pouco isso que você falou, desses conceitos parecerem inseparáveis. Porque a gente pode dizer que eles podem ou não parecer inseparáveis.
Se a gente para para examinar nossas instituições representativas hoje, somos levados a concordar, em parte, com aqueles que afirmam que a representação é uma farsa que apenas serve para nos afastar da democracia.
Você encontra isso nos estudos sobre democracia e representação, em algumas referências.
Acho que dá para dizer que democracia e representação hoje parecem separadas. E o interessante de recuperar a discussão de Mill sobre a relação das duas é que estamos numa situação não muito diferente da do tempo dele.
Ainda encontramos uma representação que não é 100% democrática.
Uma diferença em relação ao nosso tempo é que, no contexto da Inglaterra do século XIX, o caráter antidemocrático do governo representativo era afirmado sem rodeios. É diferente do nosso tempo, porque hoje quase nunca, ou nunca, os representantes eleitos afirmam que a representação que eles praticam é oligárquica.
Quando a representação política surge na Europa da Idade Média, seu uso se dá de uma forma não democrática, ou melhor, de uma forma oligárquica. E esse déficit democrático da representação permanecia na Inglaterra vitoriana.
Ao constatar esse quadro de ausência de democracia no governo representativo inglês, Mill, assim como outros filósofos radicais — usamos esse termo para designar um grupo de filósofos e ativistas que orbitavam em torno de Bentham, também um filósofo inglês —, queria combater o caráter oligárquico do governo representativo inglês e democratizar a representação praticada naquele contexto.
Então, o interessante de recuperar o debate que ele faz entre democracia e representação é, como eu disse, porque o contexto dele guarda semelhanças com o nosso.
A gente também precisa democratizar a representação que costuma ser praticada.
DM — Perfeito. Os dois primeiros textos desse volume nascem desse diálogo de Mill com o livro que mencionei, A democracia na América, de Tocqueville.
Queria que o senhor comentasse um pouco a respeito desse livro também, o que John Stuart Mill reconhece como contribuição fundamental de Tocqueville e em que pontos acaba se distanciando desse pensador.
GHD — Uma das contribuições fundamentais de Tocqueville que Mill reconhece é a articulação entre democracia e representação que aparece em A democracia na América. É um livro publicado na década de 1830 em dois volumes.
Qual foi o impulso para a escrita desse livro? Tocqueville estava convencido de que a democracia era um destino dos povos europeus. Por conta dessa convicção, resolveu viajar para aquele país onde julgava que o princípio democrático tinha sido realizado ao máximo: os Estados Unidos.
Ele vai para os Estados Unidos, fica nove meses viajando por lá e, quando chega, depara-se com algo inusitado. As instituições comunais que existiam, principalmente na Nova Inglaterra, no Nordeste dos Estados Unidos, combinavam representação e democracia.
Isso, para um europeu do século XIX, era algo muito estranho.
Tão estranho que, antes dele, ninguém julgara essas instituições comunais dignas de um estudo aprofundado. Em A democracia na América, ele critica os ingleses e diz mais ou menos assim: “É raça de homens que enxerga, mas não vê, que escuta, mas não ouve”, quando fala dessa ausência de análises sobre as instituições comunais da Nova Inglaterra.
Tocqueville permite a Mill pensar algo que, no século XIX, parecia interditado pela filosofia política, que é a possibilidade de uma representação democrática, a possibilidade de combinar essas duas coisas.
Porque, como falei agora há pouco, elas nasceram separadas.
Democracia significa, literalmente, poder do povo. É um regime que... Não vou dizer que nasce, porque, quando estamos falando de práticas políticas, me incomoda um pouco falar em nascimento, invenção ou descoberta. Acho que não devemos falar que nasce em Atenas.
Mas um dos primeiros usos de que temos registro da democracia se deu em Atenas, na Antiguidade. E havia lá uma participação direta dos cidadãos. Eles discutiam e votavam as leis.
Quando a representação se espalha pela Europa da Idade Média, você não tem isso. Na verdade, há senhores feudais que controlam uma população de servos e apelam para o expediente da representação para governar esses servos.
São coisas muito diferentes.
Por isso, para um europeu do século XIX, seria muito estranho ver essas duas práticas sendo articuladas.
Outra contribuição fundamental que vemos no livro de Tocqueville é aquilo que ele chama de uma nova ciência política.
A grande contribuição de A democracia na América, segundo Mill, seria aplicar o método empírico, que ele chama de método newtoniano ou baconiano, ao estudo das instituições políticas.
Tocqueville abandona a tipologia histórica dos regimes políticos, que fez fortuna na filosofia política do século XVIII. Ele inova ao estudar como as formas políticas se decantam a partir de formas sociais correspondentes.
Quem mostra isso muito bem — e aqui remeto a uma resenha publicada no blog da Unesp — é Maria Isabel Limongi.
Na resenha, ela mostra muito bem essa inovação metodológica que Tocqueville traz para o campo da filosofia política e como isso encanta Mill.
Quando Mill resenhou A democracia na América, era jovem. Publicou a primeira resenha em 1835, tinha 28 ou 29 anos, se não estou enganado. Em 1840, também jovem, publicou a segunda resenha.
E diz na autobiografia, publicada no ano em que morreu, que uma obra fundamental para o amadurecimento de sua filosofia política foi A democracia na América.
Por que isso? Dentre outros motivos, podemos ressaltar o fato de Tocqueville mostrar ser possível combinar democracia e representação, o que contribuiu para incentivar Mill a querer articular essas duas práticas em sua terra natal.
Mas, antes de continuarmos a conversa, há uma coisa que precisamos apontar que nem Tocqueville nem Mill mostram e que acho importantíssimo pontuar, porque temos mais estudos hoje que permitem apontar essa lacuna.
Essa combinação entre democracia e representação observada no início do século XIX nas instituições comunais da Nova Inglaterra vem dos povos ameríndios.
Hoje temos vários estudos mostrando que os colonos europeus que foram ocupar a América do Norte, ao chegarem lá — foi uma relação de violência e exploração —, perceberam nos povos ameríndios, mais especificamente na Confederação dos Iroqueses, algo muito singular: justamente a combinação entre representação e democracia.
A Confederação dos Iroqueses — vou ser breve aqui, porque acho que iríamos digredir se tratássemos dela em detalhes — era uma instituição representativa que reunia cinco nações indígenas, posteriormente seis.
No início, reunia cinco nações indígenas, e esses representantes eram representantes democráticos.
Por quê? Há vários elementos que nos permitem afirmar isso, mas vou destacar dois.
O primeiro é que se esperava que esses representantes respondessem à opinião pública das nações que representavam e, caso houvesse um descolamento muito grande, eles podiam ser destituídos do cargo.
E, o que é mais interessante ainda, quem era responsável por abrir o processo de destituição desses representantes eram as mulheres.
Um segundo elemento muito democrático da Confederação dos Iroqueses, que contrasta bastante com nosso governo representativo hoje, residia no fato de as pautas poderem ser propostas por qualquer membro da comunidade.
Isso é muito democrático.
Quando os colonos europeus chegam lá e observam isso, incorporam essas práticas. Há inclusive estudos que falam da influência da Confederação dos Iroqueses na elaboração das instituições políticas dos Estados Unidos.
Acho importante abrir esse parêntese porque é uma lacuna nos dois autores que precisa ser observada.
DM — Muito interessante. Sobretudo hoje, quando temos uma série de estudos na linha decolonial. É sempre interessante alargar esses conceitos.
Queria perguntar também o seguinte: Mill traz uma reflexão de que a democracia não é apenas um mecanismo para escolher governantes, mas também uma experiência de formação política dos cidadãos.
O que significa essa dimensão, se pudermos chamar assim, pedagógica da participação?
GHD — É uma pergunta muito boa.
Para começar a responder, primeiro vamos observar que essa concepção pedagógica está atrelada a uma visão epistêmica da política, e isso hoje recebe muita crítica na teoria democrática.
Tanto Tocqueville quanto Mill, em maior ou menor medida, endossam uma concepção epistêmica da política.
O que isso quer dizer? Quer dizer que, para eles, a deliberação política funciona como um jogo de erros e acertos.
Existem respostas mais ou menos certas para as pautas políticas.
Nos dois autores, a concepção pedagógica da participação democrática vem acompanhada da preocupação com o que podemos chamar de suicídio democrático.
A democracia é a forma de regime que torna o lugar do poder um lugar vazio. Ela acolhe a transformação. E, ao fazer isso, pode degringolar para o seu oposto.
Um exemplo de suicídio democrático que marcou muito Mill foi o 18 de Brumário de Luís Napoleão Bonaparte.
A França foi o primeiro país a adotar o sufrágio universal masculino em âmbito nacional em 1848. E qual foi o resultado disso? Napoleão III, que era um político abertamente autoritário, foi eleito. Foi eleito com mais de 70% dos votos.
Foi amplamente apoiado pela classe trabalhadora, a mesma classe trabalhadora que, menos de dois anos depois, o veria excluí-la do sufrágio e que, no ano seguinte, em 1851, veria esse político, eleito com uma votação muito expressiva, dar um golpe de Estado contra a incipiente democracia que havia na França.
Então, o 18 de Brumário de Luís Bonaparte mostrou aos intelectuais progressistas do século XIX que a democracia, enquanto regime aberto à transformação, pode se aniquilar.
Mill vai interpretar o golpe napoleônico como resultado de um eleitorado desinformado que apoiou um líder abertamente autoritário e contrário à sua liberdade.
Depois desse evento — isso já começa a aparecer na obra dele depois da leitura de A democracia na América, porque é um tema que Tocqueville também aborda —, Mill vai pensar como podemos elaborar mecanismos que dificultem o suicídio democrático, que favoreçam uma participação política mais crítica.
E acredita que as instituições comunais — seguindo Tocqueville — amenizam esse problema.
Por quê? Porque, quando as pessoas participam desse espaço deliberativo presencial, existe um pressuposto fundamental da deliberação.
Às vezes usamos “deliberar” no dia a dia como sinônimo de discutir. Mas não. Um pressuposto fundamental da deliberação, e por isso ela é um tipo muito especial de discussão política, é a pressuposição de falibilidade.
Você tem que pressupor que pode estar errado e que deve rever seu posicionamento conforme as informações apresentadas.
Ou seja, a deliberação se opõe a uma mentalidade dogmática.
Quando as pessoas participam desses espaços deliberativos presenciais, elas alargam sua mente. Mill fala em alargar, ampliar, esclarecer a mentalidade das pessoas.
Isso é a pedagogia democrática.
Ele parte da ideia de que os fenômenos políticos podem ser enxergados por vários lados.
Eu sou de um grupo social, vejo o mundo político da minha perspectiva. Quando vou para uma assembleia deliberativa e há pessoas de vários grupos, é como se eu costurasse as várias perspectivas pelas quais aquele fenômeno político pode ser acessado.
Ao fazer essa costura, aí está o aprendizado, a pedagogia democrática.
Amplio minha compreensão do mundo político.
É a ausência dessa pedagogia democrática que levaria a democracia ao seu suicídio.
DM — O senhor acha que hoje enfrentamos um momento desses?
Eu sei que é um pouco tentador, diante da situação toda, pensando no Brasil, nos Estados Unidos, na Hungria, em Viktor Orbán, perguntar se não estamos diante de um desses momentos de pré-suicídio democrático.
GHD — Acho que é uma pergunta muito válida. Tivemos o primeiro turno há poucos dias, nem uma semana, então não tem como não falar sobre isso.
Acho que sim, tem uma relação com o que estamos presenciando.
Vou falar sobre algo que aconteceu comigo no último domingo.
Fui votar e, por algum motivo, fiquei duas horas na fila. Até perguntei se a máquina tinha estragado. Falaram que não, que era muita gente mesmo.
Nessas duas horas, havia uma pessoa na minha frente com a camiseta do Brasil, com a cola dele mostrando o número 22 para todo mundo, e durante todo esse período ele ficou vendo vídeos nas redes sociais.
Acho que o voto dele e esse vício — que para mim parecia um vício em vídeo — não são coisas separadas. Essas coisas estão ligadas.
O que observamos hoje é uma perda muito grande do potencial deliberativo da política.
Esses espaços de participação direta, onde as pessoas comuns podem estar em contato com diferentes perspectivas sociais e ampliar sua compreensão do mundo político, quase não existem mais.
Mill fala no livro que precisamos de uma ágora dos modernos.
O que era a ágora? Era a praça pública onde, na democracia ateniense, os cidadãos ficavam. Sócrates ficava lá fazendo suas perguntas. Era um espaço de discussão, um espaço deliberativo.
Por conta das novas tecnologias, observamos uma atomização cada vez maior da sociedade.
As pessoas cada vez menos saem de casa, cada vez menos entram em contato com perspectivas diferentes daquelas que circulam em suas bolhas.
E, junto com esse processo de atomização, temos — não vou dizer uma morte — um fenecimento da deliberação política.
Acho que esse é um tema muito atual dos ensaios.
Junto com isso, há a questão da corrupção da formação da opinião pública.
Essa ágora dos modernos é um espaço de formação da opinião pública. E, no governo representativo, para que ele seja democrático, você precisa ter uma opinião pública saudável.
Costumo dizer que a decisão eleitoral é a ponta do iceberg, aquele gelo do qual só conseguimos ver uma pontinha.
Para avaliar se determinada decisão eleitoral foi democrática de fato, para avaliar se ela empodera o povo, você tem que analisar todo esse pedaço de gelo embaixo.
Por quê? Porque, se o processo de formação da opinião que levou uma pessoa a tomar uma decisão foi contaminado, você pode colocar em questão o caráter democrático daquela decisão.
Então acho que você está certo em falar sobre uma relação com nosso tempo.
DM — Um pouco inquietante.
Voltando ao livro em si, em um dos textos Mill trata de uma reforma parlamentar e da representação proporcional.
Dá para entender qual era o problema que ele enxergava nas instituições políticas do tempo dele e também que tipo de representação ou instituição buscava defender?
GHD — O problema que ele enxergava era o governo representativo oligárquico. Esse era o grande problema.
E que tipo de representação ele buscava promover? A representação democrática.
O objetivo era democratizar a representação, democratizar o governo representativo inglês.
Para fazer isso, ele se volta a Atenas. Assim como outros filósofos do século XIX, via Atenas como um grande exemplo de democracia.
Ele vai examinar como funcionava a democracia ateniense.
Ela era possível porque havia uma retroalimentação entre a ágora, esse espaço de discussão mais solta, a praça pública, e a Eclésia, a assembleia onde os cidadãos votavam decisões e leis.
Essa retroalimentação não era problemática.
Por quê? Porque eram as mesmas pessoas. Era uma cidade-Estado.
As mesmas pessoas que estavam na ágora discutindo depois iam para a assembleia. Inclusive eram espaços geograficamente próximos.
No contexto do governo representativo, essa retroalimentação é problemática.
Por quê? Porque não são as mesmas pessoas.
Você tem um contingente muito maior de cidadãos que votam e um contingente muito menor de pessoas dentro do Legislativo fazendo as leis.
Então é preciso pensar modos de reproduzir aquela circularidade, aquela retroalimentação existente na Atenas democrática, no contexto moderno.
Como Mill achava possível reproduzir isso no contexto moderno?
Por meio da opinião pública.
Você precisa ter uma esfera pública com informações verídicas. Há essa questão da verdade que ele traz, que é criticada, mas acho que existe aí uma preocupação legítima, principalmente no contexto de informações falsas que temos hoje.
Uma esfera pública com informações verídicas, plurais. É preciso ter uma pluralidade de vozes sendo transmitidas.
Quando o governo representativo é democrático? Quando as leis promulgadas dentro da Assembleia são influenciadas por essa esfera pública democrática, plural, com várias perspectivas.
Isso é a soberania diárquica.
Por isso falamos que o governo representativo se torna democrático quando ativa essa soberania diárquica.
O que é diarquia? É a existência de dois polos de poder.
Você tem o campo das opiniões, dos juízos das pessoas comuns na esfera pública, e o campo das decisões promulgadas no interior do Legislativo.
Quando existe a soberania diárquica, há circularidade entre esses dois campos. Se quiser, entre Estado e sociedade civil.
Esse tipo de representação exige prestação de contas e exige uma ágora dos modernos efetivamente livre, um espaço deliberativo.
DM — Perfeito.
Falando agora um pouco do livro em si, do trabalho de tradução, quais foram os principais desafios de trazer esse material para o português?
São textos políticos do século XIX, então imagino que a preocupação em não perder essa precisão conceitual estivesse presente no seu trabalho e, ao mesmo tempo, fosse preciso deixar essa leitura fluente para o público de hoje.
GHD — O maior desafio para mim foi a pontuação.
Primeiro traduzi tudo e mantive a pontuação do original, mas Mill tem uma pontuação muito errática. São frases muito longas, muito uso de ponto e vírgula.
Primeiro traduzi mantendo a pontuação e depois houve um segundo trabalho de domesticar essa pontuação para deixar o texto fluido no português atual.
Essa foi a maior dificuldade.
Não houve nenhum momento em que senti alguma dúvida muito grande sobre algum termo para traduzir.
O momento que chegou mais próximo disso foi um em que ele altera a tradução de Tocqueville.
Como colocamos em nota de rodapé no começo do livro, Mill, quando cita Tocqueville, está consultando a tradução inglesa que existia naquela época.
Foi, aliás, um livro rapidamente traduzido para o inglês. O primeiro volume foi publicado em 1835 na França e, no mesmo ano, saiu a tradução em inglês. Isso também acontece com o segundo volume da obra.
Ele consulta essas traduções inglesas, mas também as altera.
Há um momento em que Tocqueville fala em “interesse bem compreendido” e Mill, em algumas passagens, fala em “autointeresse bem compreendido”.
Não entendi — ele não explica — por que faz essa mudança.
Foi o único momento de estranhamento.
Mantive na tradução a mudança que ele traz. Só não entendi o porquê. É algo que posso investigar melhor.
Acho que são três passagens em que ele faz essa mudança.
DM — Professor, minha última pergunta.
Essa coletânea chega — já tocamos nesse assunto em alguns momentos da nossa conversa — em um período muito forte de debate sobre democracia, representação, participação e crise de confiança nas instituições.
Que pergunta o senhor acha que Mill faz em seu trabalho que é mais urgente para nosso tempo?
GHD — Sem dúvida, é essa que comentamos agora há pouco: como evitar o suicídio democrático?
Porque é cada vez mais evidente que a democracia está em crise.
Existem vários termos circulando na teoria democrática para designar o mesmo fenômeno, que é essa crise da democracia.
Tem gente falando em desdemocratização, erosão, regressão ou desconsolidação democrática. Uma série de conceitos está circulando e todos apontam para esse problema: o perigo de um suicídio democrático.
Essa é a pergunta mais urgente dele para nosso tempo.
Como evitar o suicídio democrático?
É uma pergunta que não é simples de responder.
DM — Sim.
Professor, mais uma vez, muito obrigado pela gentileza e pela disponibilidade para conversar com a gente.
O livro Ensaios sobre democracia e representação política, de John Stuart Mill, está disponível no site da Editora Unesp e também nas principais livrarias do Brasil.
Professor Gustavo, muito obrigado.
GHD — Obrigado, Diego.
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