ENTREVISTA: Marcelo Ridenti revisita cultura, política e utopias em nova edição de 'Em busca do povo brasileiro'

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domingo, 18 de outubro de 2026

Em entrevista à Editora Unesp, sociólogo apresenta novidades da terceira edição, discute o romantismo revolucionário e analisa as disputas em torno da ideia de povo no Brasil
(Foto: Léo Ramos Chaves/Revista Pesquisa FAPESP)

Publicado originalmente em 2000, Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da TV chega à terceira edição revista e ampliada pela Editora Unesp. Na obra, Marcelo Ridenti acompanha artistas e intelectuais que, especialmente a partir dos anos 1960, buscaram representar, interpretar e também construir determinadas imagens do povo brasileiro por meio do teatro, do cinema, da música, da literatura, das artes visuais e da televisão.

Em entrevista à Editora Unesp, Ridenti explica que procurou preservar a estrutura original do livro e sua própria historicidade. As novas edições foram incorporando correções, notas e posfácios; a terceira acrescenta ainda bibliografia e uma playlist que pode ser acessada por QR Code e funciona como uma espécie de trilha sonora para os temas e o período analisados.

A atualidade do livro, para o autor, está também na permanência das disputas sobre quem constitui o “povo brasileiro”. Ridenti lembra que a expressão nunca designou uma categoria sociologicamente homogênea: ela envolve classes sociais, gênero, raça, religião e projetos políticos concorrentes. Nos anos 1960, uma parcela importante da produção cultural de esquerda buscou nas chamadas raízes populares elementos para imaginar um país moderno, mais igualitário e capaz de resistir aos efeitos desumanizadores de determinada forma de modernização.

Essa perspectiva está ligada ao conceito de romantismo revolucionário, central na interpretação desenvolvida pelo sociólogo. Em vez de um simples desejo de retorno ao passado, o conceito designa a recuperação de valores associados a outras formas de sociabilidade — como solidariedade, gratuidade, igualdade e relação com a natureza — para alimentar projetos de transformação futura. “Transformar a sociedade, não para voltar para trás, mas pegar valores desse passado para ajudar a construir o futuro”, resume Ridenti.

A entrevista percorre ainda a relação entre cultura e organizações políticas, o papel do Centro Popular de Cultura da UNE, o Teatro de Arena, o Teatro Oficina, o Cinema Novo, o tropicalismo e a música popular brasileira. Ridenti destaca que a efervescência artística do período esteve profundamente ligada às discussões sobre desenvolvimento, identidade nacional, desigualdade e revolução, mas alerta para a necessidade de não idealizar aqueles anos: havia também produção cultural favorável à ditadura e disputas muito distintas sobre o que deveria ser o Brasil.

Ao discutir a influência dos Estados Unidos, o autor lembra que movimentos como o Cinema Novo procuraram formular uma estética brasileira em contraposição a modelos hollywoodianos, enquanto o tropicalismo apostou na incorporação e transformação de referências estrangeiras. Para Ridenti, as duas posições estavam envolvidas, de modos diferentes, na busca por uma identidade e por uma ideia de civilização brasileira, ao mesmo tempo em que o país consolidava uma poderosa indústria cultural.

Mais de duas décadas depois da primeira edição, Em busca do povo brasileiro permanece, assim, não apenas como investigação de uma experiência cultural e política do passado, mas como ponto de partida para interrogar conflitos que continuam presentes na sociedade. A pergunta que atravessa o título — afinal, quem é o povo brasileiro? — continua, para Ridenti, necessariamente em aberto.

Assista à entrevista completa abaixo ou leia a transcrição a seguir:

https://www.youtube.com/watch?v=5f-fMKyuNTE

Diego Moura — Hoje conversamos com o professor Marcelo Ridenti, autor de Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da TV, uma obra que chega agora à terceira edição revista e ampliada pela Editora Unesp.

O livro acompanha a trajetória de artistas e intelectuais que, especialmente a partir dos anos 1960, buscaram representar, interpretar e, em alguma medida, inventar o povo brasileiro. Esse povo apareceu no teatro, no cinema, na música, na literatura, nas artes visuais e na televisão como promessa de transformação, sujeito da revolução, imagem de autenticidade nacional e também como construção atravessada por ambiguidades, idealizações e disputas políticas.

No livro, o professor Marcelo Ridenti revisita os anos do CPC, da cultura engajada, da repressão, do exílio, das derrotas políticas e da passagem para a era da televisão, investigando como artistas e intelectuais tentaram conciliar criação estética, compromisso social e projetos de modernização do país.

No centro da obra está a ideia de romantismo revolucionário, uma aposta em uma modernidade justa e igualitária, construída a partir de uma imagem lírica, nostálgica e politicamente carregada do povo. É sobre essa busca, suas utopias, seus impasses e sua permanência no Brasil contemporâneo que vamos conversar agora.

Professor, muito obrigado pela disponibilidade.

Marcelo Ridenti — Obrigado. É um prazer estar aqui dialogando com você, Diego, e com a Editora Unesp, que tem publicado os meus livros ao longo do tempo e, particularmente, este, Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução.

DM — O livro chega agora à terceira edição, revista e ampliada. O que essa nova edição traz de novidade e por que voltar hoje à busca do povo brasileiro feita por artistas e intelectuais ao longo do século XX?

MR — Esse livro foi publicado originalmente no ano 2000, depois teve uma reedição em 2013 e agora outra em 2026. A edição original era baseada na minha tese de livre-docência, que era justamente sobre as afinidades entre o mundo da política, as utopias revolucionárias dos anos 1960 e o que era produzido no mundo da cultura artística: teatro, cinema, música popular, enfim, todo o conjunto das artes daqueles anos que ficaram conhecidos como anos rebeldes.

Nas edições subsequentes, fui corrigindo pequenos detalhes sem mudar estruturalmente o texto, até porque ele teve um relativo sucesso e também tem certa historicidade. Eu não quis mudar isso.

O que fui fazendo foi acrescentar notas de rodapé e um posfácio que veio para a segunda edição, e agora um novo posfácio para a terceira edição, cuja atualidade acho que está posta neste momento em que estou dando a entrevista, às vésperas do segundo turno da eleição presidencial.

Nessa campanha atual, estamos vendo a construção de uma frente muito ampla de artistas, o que faz lembrar, se voltarmos no tempo, as Diretas Já no fim da ditadura e, no período anterior, aquela própria agitação cultural dos anos 1960, inclusive trazendo algumas das mesmas personagens, particularmente duas a quem dedico capítulos do livro e que continuam felizmente aí: Chico Buarque de Holanda e Caetano Veloso.

Ontem mesmo houve uma manifestação no Rio de Janeiro e estavam os dois, já mais cansados, com mais de 80 anos, em cima do caminhão defendendo a continuidade da democracia no Brasil.

Por coincidência ou não, esse livro está sendo reeditado justamente em um momento em que intelectuais, artistas e estudantes estão de novo nas ruas, como estiveram nos anos 1960, evidentemente em circunstâncias muito diferentes.

Naquele momento, pensava-se muito em romper com o subdesenvolvimento e depois em uma revolução brasileira que não se sabia bem o que seria. Para alguns, era uma revolução nacional-democrática; para outros, uma revolução socialista. Era uma revolução também nas artes, no cinema, no teatro, na literatura, nas artes plásticas.

Vemos todas aquelas manifestações daquele tempo: o Teatro de Arena, o Teatro Oficina, o Cinema Novo, a bossa nova engajada, o Show Opinião, a Mostra Opinião, a Nova Objetividade Brasileira.

Hoje é outro contexto: o contexto de defesa da democracia, de defesa do que foi conquistado. Isso lembra também o período das Diretas Já, quando houve uma grande união de artistas, estudantes, intelectuais e parte do povo brasileiro para decretar o fim da ditadura.

Agora vemos novamente uma ampla rede de artistas articulados para defender a democracia, para defender aquilo que nos parece ser a continuidade da possibilidade de pensar uma civilização brasileira, como se criou aquela expressão no período democrático do pós-1945.

O livro fala dos anos 1960 aos 1980, do período da ditadura no Brasil, começando pouco antes dela e chegando à redemocratização, culminando numa espécie de sonho dessa democracia brasileira.

Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, chegou à Presidência, um grande sociólogo expressivo dos anos 1960. Lula foi a principal força que surgiu nos anos 1970, no meio metalúrgico, popular, dos novos movimentos sociais e do novo sindicalismo. Depois foram adversários democraticamente durante o período da chamada Nova República e hoje se aproximam novamente diante de determinadas ameaças à democracia.

Acho que o livro se recoloca com atualidade. É outro contexto, mas é importante conhecer aquele anterior, que é o objeto do livro, para entender o que acontece hoje.

DM — Estou com o livro em mãos. Logo de saída, antes da introdução, há inclusive um QR Code com uma playlist pensada para acompanhar a leitura.

MR — Bem lembrado. Além desse posfácio, das notas novas e de acréscimos bibliográficos, há essa novidade tecnológica que é a possibilidade de fazer playlists.

Fiz uma longa playlist com as principais canções, não apenas aquelas abordadas diretamente no livro, mas também as que expressam a emergência dessa música popular brasileira da época, tematizando questões relacionadas às transformações sociais e ao povo brasileiro que mobilizaram muito aquele período.

Começa ainda no pré-1964, com o grande tema do subdesenvolvimento. A questão de romper com o subdesenvolvimento era uma chave para pensar os anos 1960 e historicamente se repõe no Brasil. O tema do desenvolvimento também não saiu completamente de cena.

Recupero várias canções desses dois autores que mencionei, Chico e Caetano, mas também Geraldo Vandré, Edu Lobo, as canções do Show Opinião, Gonzaguinha, Ivan Lins, Milton Nascimento, Clube da Esquina.

Está tudo ali para quem tiver interesse em acessar essas canções que, de certa maneira, formam uma trilha sonora, um fundo musical, para quem quiser ler o livro.

DM — Pegando justamente o título, Em busca do povo brasileiro: quando falamos em “povo brasileiro”, isso depende muito da interpretação de quem está falando.

Na leitura que o senhor faz dos anos 1960, que povo era esse que os artistas e intelectuais estavam buscando naquela época?

MR — O livro não é exatamente sobre quem é o povo, mas sobre essa busca do povo.

Acreditava-se, ou criou-se uma estrutura de sentimento, como diria Raymond Williams, segundo a qual, diante daquela modernização da sociedade brasileira e daquele processo acelerado de urbanização, era preciso buscar determinadas referências.

Se você pega os dados estatísticos da época, até 1960 o Brasil ainda era um país eminentemente rural. Em 1970, no Censo, já era claramente urbano. Então, os anos 1960 estão no coração dessa passagem de um Brasil rural para um Brasil urbano, de um país mais industrializado.

Essa industrialização e modernização viriam a se completar durante a ditadura militar em um processo de modernização conservadora, conduzido de modo a produzir uma concentração enorme de riquezas na sociedade brasileira, representada, por exemplo, pelo chamado milagre brasileiro.

A maioria do povo trabalhou muito, mas poucos enriqueceram, inclusive com o surgimento de uma classe média alta significativa no Brasil.

Tudo isso foi acompanhado pelas canções, pelos filmes. O livro trata dessa busca.

Diante desse cenário de modernização, parte dos intelectuais e artistas elegeu uma espécie de busca das raízes autênticas do povo brasileiro para resistir a esse processo de desumanização, ao império do fetichismo da mercadoria, que começava a aparecer também com o avanço da indústria cultural no Brasil.

Havia uma espécie de volta ao passado, às chamadas raízes populares, mas não era apenas uma volta reacionária.

Eu chamo isso de romântico, inspirado em Michael Löwy e Robert Sayre, que escreveram sobre o romantismo na contramão da modernidade: voltar ao passado para construir o Brasil do futuro. Um Brasil moderno, mas com uma modernidade que permitisse uma socialização do mundo da cultura e da riqueza.

Havia diferentes projetos, mas, de qualquer modo, certa idealização do povo brasileiro, que está no passado e remete ao futuro.

E, naturalmente, havia quem dissesse exatamente o contrário, que tudo aquilo era coisa de comunistas e que o verdadeiro Brasil seria outro.

Então reaparece a pergunta: afinal, quem é o povo brasileiro?

Na posse do Lula nesse mandato, por exemplo, apareceram representantes dos indígenas, dos negros, das mulheres, das pessoas com deficiência, dos trabalhadores. Todos subiram juntos a rampa do Planalto.

Esse é um povo que, de certa maneira, é costurado pelo nosso imaginário civilizacional do Brasil.

Poucos dias depois, no 8 de janeiro, outra parte do povo tomou Brasília. Então eu venho perguntando: quem é o povo brasileiro?

É aquele que subiu a rampa ou aquele outro que tomou de assalto os prédios da Praça dos Três Poderes? É aquele que vota na extrema direita ou aquele que vota no Lula?

Há uma disputa, há um mistério nisso. Surgiram trabalhos importantes que estudam, por exemplo, movimentos evangélicos e outros fenômenos.

A ênfase do meu livro está nesse outro Brasil. Se você olha a música popular do período, a ênfase que dou é para esses autores que estavam pensando a Revolução Brasileira.

Isso não quer dizer que todos pensassem assim. Houve toda uma série de canções que fizeram a trilha sonora favorável à ditadura militar. Isso aparece mais lateralmente no livro e em outros escritos que realizei, porque meu tema não era analisar o conjunto da cultura brasileira, mas a cultura brasileira de esquerda, que foi muito expressiva no período.

Mas havia celebrações da Transamazônica, por exemplo, ao presidente Médici. Não podemos mistificar o tempo da ditadura achando que todo mundo era contra. Não era. Havia muita gente a favor.

Por isso, a pergunta sobre quem é o povo permanece aberta. “Povo” é uma categoria muito fluida. É composto por classes sociais, frações de classe, cortes de gênero, raça e religião. Não é uma categoria sociologicamente exata.

Naqueles anos, depois criticados como populistas, havia uma valorização do povo associado às grandes bandeiras de liberdade, igualdade, desenvolvimento social, acesso ao mundo do trabalho e da cultura, numa possibilidade de juntar diferenças culturais em um projeto de nação igualitário.

Estou falando do passado, mas, pelo andar da carruagem, esse passado se repõe de outras formas no cotidiano.

DM — Aproveitando o gancho dos Estados Unidos, queria que o senhor comentasse iniciativas daquele período que examina no livro em que aparece essa influência. Imagino que no cinema, mas talvez também em outras áreas.

MR — O Cinema Novo, por exemplo, colocava a necessidade de criar uma estética brasileira que se contrapusesse a Hollywood.

Temos o grande manifesto da estética da fome, de Glauber Rocha, de 1965, colocando o Brasil dentro do campo das forças do chamado Terceiro Mundo. Ele valoriza muito Frantz Fanon, inclusive falando da violência revolucionária, e se contrapõe a uma estética hollywoodiana.

Vemos isso também na música popular.

Nos anos 1970, há casos conhecidos de cantores brasileiros que gravavam em inglês porque achavam que fariam mais sucesso. Mas tudo isso era muito ambíguo, muito diferenciado.

Houve a difusão do chamado sambão-joia, a própria construção da ideia de música popular brasileira dentro da indústria fonográfica. Não são questões simples. É preciso estudar especificamente a música popular, o cinema, para pensar a influência norte-americana.

Também é preciso pensar a proposta dos tropicalistas. Se você pega, por exemplo, Hélio Oiticica nas artes plásticas, há uma recuperação de Oswald de Andrade e da antropofagia: recuperar aquilo que está na nossa origem negra, branca, indígena, da tradição brasileira, mas sempre incorporando e deglutindo o que vem de fora para criar nossa identidade.

Alguns diziam: tudo isso que vem de fora não serve, precisamos voltar às raízes. Outros diziam: vamos incorporar o que vem de fora.

É um debate bastante intrincado, mas, tanto num caso como no outro, a ideia de identidade brasileira, de construção da nacionalidade e de autêntica representação do povo estava colocada.

Fosse buscando raízes ou buscando as raízes ao mesmo tempo em que se incorporava o que viesse de fora para deglutir, a ideia era manter uma identidade e criar uma civilização brasileira.

A crítica de Roberto Schwarz ao tropicalismo, por exemplo, lembra que o tempo de Oswald de Andrade era diferente porque ainda não havia uma indústria cultural consolidada.

Durante a ditadura militar, consolidou-se no Brasil uma indústria cultural muito avançada e complexa: televisão, rádio, bancas de jornal, imprensa, indústria fonográfica.

Isso envolve costuras de vários elementos da sociedade brasileira. Não é meramente aquilo que vem do exterior. Há um aspecto complexificador, porque estamos dentro de estruturas muito fortes, multinacionais, nas quais os Estados Unidos têm um peso importante.

Trato desses temas em outras publicações também, particularmente em Brasilidade revolucionária e em Segredos das senhoras americanas: intelectuais, internacionalização e financiamento na Guerra Fria cultural.

Todos vão abordando diferentes aspectos envolvidos na modernização da sociedade brasileira, na construção de uma modernidade nacional e internacional muito interligada.

DM — Queria retomar uma ideia que o senhor comentou no início: o romantismo revolucionário. Como esse conceito ajuda a compreender a cultura brasileira daquele período e a relação entre arte, política e utopia?

MR — Michael Löwy, particularmente, desenvolveu ao longo dos anos trabalhos sobre o romantismo. Ele cria uma série de tipologias que não vou comentar aqui.

Muitas vezes o romantismo é tratado como simples saudosismo do passado: você quer voltar ao passado e aquilo não teria mais lugar no futuro. Ele discorda disso, e eu também.

Há valores como gratuidade, doação, possibilidade de criação de relações humanas, contato entre as pessoas e respeito à natureza, que estariam — ou pelo menos imaginamos que estivessem — em outros modos de produção do passado, diferentes do capitalismo, e que funcionariam como uma espécie de barreira diante dessa sociedade capitalista que transforma tudo em mercadoria, inclusive a própria força de trabalho e os bens culturais.

Tudo vira mercadoria no capitalismo.

O romantismo pode ser visto como uma barreira, como estar na contramão dessa modernidade, não necessariamente para voltar atrás num projeto regressivo, mas para recuperar valores destruídos pela civilização capitalista e criar outro tipo de sociedade em que gratuidade, doação, solidariedade, igualdade social, liberdade e valorização da natureza estivessem colocadas para o futuro.

Seria aquilo que ele chama de romantismo revolucionário.

Transformar a sociedade, não para voltar para trás, mas pegar valores desse passado para ajudar a construir o futuro.

Acho que essa ideia é muito importante novamente hoje, inclusive por algo que não estava tão presente nos anos 1960: a própria preservação da vida humana na Terra, ameaçada por essa lógica de completo desrespeito à natureza.

Isso já é uma atualização, mas naquele tempo havia essa ideia de não se deixar levar pela desumanização.

É preciso dizer também que esse romantismo revolucionário do período foi pensado sobretudo por setores intelectualizados e artísticos, em geral ligados às classes médias que começavam a surgir mais desenvolvidamente no Brasil e que também construíram a base social dos grupos de esquerda.

Meu livro não é apenas sobre o mundo da cultura, mas sobre a articulação desse mundo com as organizações políticas da época: a esquerda católica, a Ação Popular, o Partido Comunista Brasileiro, o Partido Comunista do Brasil, grupos como a Polop.

Vou mostrando a ligação entre as propostas desses grupos para uma revolução brasileira e aquilo que estava sendo produzido nas artes.

Tento fazer essa costura. Em outro livro, Brasilidade revolucionária, uso mais o conceito de Raymond Williams de estrutura de sentimentos, de uma percepção comum que tinha um fundamento de classe e que era uma espécie de ida ao povo.

Mas também existe a questão da volta. E o povo?

Logo depois do golpe de 1964, estudantes e artistas como Ferreira Gullar, Vianinha e outros criam um teatro no Rio de Janeiro e fazem o Show Opinião, que inclusive lançou Maria Bethânia. O grande sucesso musical dessa peça foi “Carcará”.

Era uma peça que colocava no palco um representante dos trabalhadores urbanos moradores de favelas, Zé Kéti; João do Vale, um migrante do Maranhão, do Nordeste; e Maria Bethânia, representando setores estudantis e de classe média.

Era uma tentativa de juntar setores intelectualizados de esquerda com agentes simples do povo brasileiro para construir aquilo que viria a ser o Brasil.

A peça utilizava dados estatísticos do IBGE e os juntava a canções para fazer uma espécie de diagnóstico do Brasil e das forças que, juntas, resistiriam à implantação da ditadura militar e àquele tipo de modernização excludente para a maioria do povo brasileiro.

Vemos ali uma tentativa que foi abortada pelo golpe de 1964. O espetáculo é uma tentativa de rearticulação depois do golpe, que teve nas manifestações estudantis de 1967 e 1968 momentos fortes, até chegar o Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968, impondo censura muito rígida e repressão brutal às artes.

Alguns foram obrigados a sair do país. Chico saiu e voltou. Caetano e Gil chegaram a ser presos e depois foram para o exterior.

Foi um período muito conturbado, os chamados anos de chumbo. Mesmo assim, no meio intelectual e artístico se construiu uma resistência.

Por vários motivos, o grande símbolo dessa resistência acabou sendo Chico Buarque de Holanda. “Apesar de você” virou uma canção de resistência ao período.

Quando Bolsonaro ganhou a eleição, eu ouvia no meu bairro pessoas cantando “Apesar de você”. E espero que não tenhamos que cantar isso de novo para o próximo presidente.

Essa construção, essa tentativa que acabou sendo abortada, aparece novamente hoje, mas agora também com uma voz mais forte das periferias.

Um dos filmes clássicos desse período que analiso é Cinco vezes favela, feito pelo Centro Popular de Cultura da UNE, que tentava levar uma arte e ideias revolucionárias para o povo.

Muitos anos depois surgiu Cinco vezes favela – Agora por nós mesmos. Ou seja, foi feito pelo próprio pessoal da periferia. Já não é mais a vanguarda, muitas vezes de classe média, indo para a periferia tentar construir um projeto junto com o povo.

Hoje vemos as periferias compostas por movimentos, pelo rap, por pessoas negras, ocupando diretamente esse espaço.

A sociedade brasileira continua com contradições desenvolvidas a partir do que já existia naquele tempo.

DM — Professor, então vamos aguardar para ver se, para ficar com a música que o senhor mencionou, “Apesar de você” fica apenas na história.

MR — Que “Apesar de você” fique na história. “Apesar de você” que era o Médici, “Apesar de você” que era Bolsonaro, e que isso fique para trás na história.

DM — Exatamente.

MR — Senão a gente canta de novo, quantas vezes forem necessárias.

DM — Professor, muito obrigado mais uma vez pela disponibilidade. Acho que é um tema que certamente permanecerá muito relevante nos próximos anos.

MR — Legal. Então as pessoas têm a trilha sonora, que o Diego lembrou bem.

Quem já tem o livro das edições antigas pode consultar o posfácio novo e acessar a playlist para fazer a trilha sonora desses dias de hoje, em que precisamos lembrar daquele fervor de revolução, resistência e transformação que está nos anos 1960.

Tenho certeza de que vamos voltar a esses temas. Espero que o futuro seja realmente o de construir uma civilização brasileira nos moldes daquela velha utopia — que já não é a mesma, mas é um projeto do qual não desistimos —, de fazer deste Brasil um país melhor, num mundo melhor.

Estamos em um momento internacional muito ruim, mas vamos superar.

DM — Com certeza, professor. E o link da playlist estará na descrição do vídeo.

Obrigado, professor. Um abraço, até mais.

MR — Obrigado. Um abraço. Tchau.

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Assessoria de Imprensa da Fundação Editora da Unesp
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