Escrita entre 1970 e 1976 e mantida em manuscrito por décadas, obra investiga mito, filosofia e ciência para contestar a noção de que o conhecimento avança de forma linear e necessária
A ciência representa necessariamente uma forma superior de conhecimento? E é possível organizar a história das ideias como uma marcha contínua que parte do mito, passa pela filosofia e culmina na racionalidade científica? São essas algumas das questões que Paul Feyerabend enfrenta em Filosofia da natureza, lançamento da Editora Unesp com tradução de Cristina de Amorim Machado, Gabriel Dirma Leitão, Luiz Henrique de Lacerda Abrahão e Rafael Velloso Luz. Escrita entre 1970 e 1976, mas mantida em manuscrito por décadas, a obra permite acompanhar um momento decisivo da trajetória do filósofo austríaco e as bases de sua crítica às concepções tradicionais de ciência.
Conhecido pelas posições que lhe renderam a fama de crítico radical da hegemonia científica, Feyerabend retorna aqui à própria história das formas de conhecimento. Antonio Augusto Passos Videira, Cristina de Amorim Machado e Luiz Henrique de Lacerda Abrahão sintetizam o problema que atravessa o livro em três perguntas: “Será que existem etapas rígidas para o desenvolvimento do conhecimento humano?”, “Ou estágios inferiores de saber que serão necessariamente superados por outros, superiores?” e, finalmente, “A ciência é uma forma de conhecimento melhor do que a filosofia, e a filosofia melhor do que o mito?”
A resposta de Feyerabend passa pela recusa de uma narrativa progressiva e hierárquica. Mito, filosofia e ciência não aparecem como degraus sucessivos de uma mesma escada, na qual cada estágio necessariamente supera o anterior, mas como formas distintas de compreender e organizar a experiência. O filósofo questiona justamente a ideia de que os critérios produzidos pela ciência moderna possam ser utilizados para julgar retrospectivamente outros modos de conhecimento e determinar sua inferioridade.
Esse movimento leva o autor a percorrer diferentes momentos da história das ideias, das cosmologias pré-históricas à formação da ciência moderna. A passagem da visão de mundo homérica para formas mais abstratas de racionalidade, por exemplo, não é tratada como consequência inevitável de um avanço intelectual. Feyerabend a examina como processo histórico complexo, condicionado por transformações sociais e culturais e pela substituição de determinadas maneiras de experimentar os fenômenos por sistemas conceituais que passam a reivindicar validade mais ampla.
O percurso chega ao mecanicismo associado a Descartes e à consolidação de uma concepção da natureza organizada segundo leis universais. Ao reconstruir essa trajetória, Feyerabend procura mostrar que a própria ciência moderna possui história: suas categorias e seus modos de explicação não emergiram fora da cultura, mas foram produzidos em contextos atravessados também por fatores políticos, artísticos e religiosos.
Filosofia da natureza ocupa, assim, uma posição particular na obra de Feyerabend. O livro aproxima seu interesse inicial pela filosofia da ciência das críticas que ganhariam formulações cada vez mais radicais em sua produção posterior. O estilo ensaístico e provocador que marcaria seus trabalhos aparece associado a uma ampla reconstrução histórica, em que autores clássicos e modernos são convocados para colocar sob suspeita certezas sobre racionalidade, objetividade e progresso.
Ao questionar a sequência aparentemente natural entre mito, filosofia e ciência, Feyerabend não propõe simplesmente substituir uma forma de conhecimento por outra. Seu argumento chama atenção para a pluralidade das maneiras pelas quais diferentes sociedades deram sentido à natureza e para aquilo que pode ser perdido quando apenas um modelo de racionalidade passa a definir quais conhecimentos merecem reconhecimento.
Sobre o autor – Paul Feyerabend foi professor de filosofia na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e de filosofia da ciência no Federal Institute of Technology, em Zurique. Antes de se dedicar à filosofia, estudou física, matemática, astronomia, teatro e produção de óperas. Entre seus livros estão Matando o tempo, Adeus à razão, Contra o método e A Ciência em uma sociedade livre, todos publicados pela Editora Unesp.
Título: Filosofia da natureza
Autor: Paul Feyerabend
Tradução: Cristina de Amorim Machado, Gabriel Dirma Leitão, Luiz Henrique de Lacerda Abrahão e Rafael Velloso Luz Número de páginas: 324
Formato: 16 x 23 cm
Preço: R$ 94
ISBN: 978-65-5711-339-4