Livro retorna ao catálogo da Editora Unesp investigando as relações estéticas, sociais e econômicas da produção cerâmica em comunidades do norte de Minas Gerais
Muito antes de a produção artesanal do Vale do Jequitinhonha ganhar projeção nacional como símbolo da cultura popular brasileira, as comunidades da região já moldavam, no barro, formas de sobrevivência, memória e expressão estética. É desse universo que parte Noivas da seca: cerâmica popular do Vale do Jequitinhonha, de Lalada Dalglish, obra que agora ganha segunda edição.
Resultado de uma pesquisa aprofundada sobre a produção cerâmica em comunidades de Caraí (Ribeirão do Capivara), Turmalina (Campo Alegre), Minas Novas (Coqueiro Campo) e Santana do Araçuaí, o livro articula aspectos estéticos, socioculturais e econômicos ligados à criação, circulação e consumo dessas peças. Ao longo do estudo, a autora examina como a cerâmica popular se constitui simultaneamente como manifestação artística, prática cotidiana e fonte de sustento para parte significativa da população do Vale.
"A autora descreve com detalhes a construção das obras. A cerâmica produzida à maneira ancestral, na técnica do acordelado ou da placa e do repuxado. A modelagem dos volumes e a gama de cores que deram ao Vale do Jequitinhonha um caráter diferenciado mostram-se em personagens-tipo que se destacaram sem se tornar padronizados: casais de noivos, homens sa- pos, bonecas siamesas", anota Lisbeth Rebollo, no prefácio. "Tem as galinhas-d’angola, chamadas 'vedetes do Vale', porque caíram no gosto do público. A autora comenta que a origem das ceramistas se mostra na cara e no fazer. No partido o colorido é latino-americano, de tradição hispano-barroca, as mulheres têm sobrancelhas grossas, os objetos utilitários têm decorações florais, o pássaro e o boi. Porém o imaginário fantástico das artesãs do Vale que se manifesta em resposta às indagações sobre a vida e a morte produz os seres híbridos, criações simbólicas, exuberantes."
A obra também propõe uma reflexão sobre a própria história da cerâmica, técnica milenar associada tanto ao valor utilitário quanto à dimensão estética dos objetos produzidos. Ao acompanhar os modos de fabricação, os processos de trabalho e as relações estabelecidas em torno do barro, Lalada Dalglish evidencia como a atividade preserva saberes tradicionais e reorganiza dinâmicas sociais em uma região historicamente marcada pela seca e pela pobreza.
Noivas da seca constrói um retrato sensível das transformações culturais e econômicas do Vale do Jequitinhonha, hoje reconhecido como um dos principais polos de artesanato cerâmico do Brasil. Nesta nova edição, o estudo reafirma sua relevância ao iluminar práticas artísticas que permanecem centrais para compreender a cultura popular brasileira e suas formas de resistência.
Título: Noivas da seca: cerâmica popular do Vale do Jequitinhonha
Autora: Lalada Dalglish
Número de páginas: 216
Preço: R$ 210
Formato: 26 x 26 cm
ISBN: 978-85-7139-803-0 (Editora Unesp) | 978-85-7060-571-9 (Imprensa Oficial)
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