Em 3ª edição revista e ampliada, Em busca do povo brasileiro investiga o romantismo revolucionário que marcou a cultura e a política dos anos 1960 e 1970 e ganha novo posfácio, referências atualizadas e playlist comentada pelo autor
Onde esteve — e onde ainda pode estar — o “povo brasileiro” imaginado por artistas, intelectuais e militantes que atravessaram as décadas de 1960 e 1970? Essa pergunta conduz Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da TV, de Marcelo Ridenti, que chega à 3ª edição revista e ampliada pela Editora Unesp. Publicada originalmente há mais de 25 anos, a obra examina como músicos, escritores, dramaturgos, cineastas e intelectuais ligados às esquerdas procuraram formular projetos de transformação social e, ao mesmo tempo, construir imagens do país e de seu povo.
O fio condutor da análise é o conceito de romantismo revolucionário, empregado por Ridenti para compreender experiências culturais e políticas marcadas pela expectativa de uma modernidade mais justa e igualitária, mas também pela valorização de formas de vida, personagens e tradições percebidas como não inteiramente submetidas ao avanço do capitalismo. “O conceito de romantismo revolucionário foi adotado não para colocar uma espécie de camisa de força na diversidade dos problemas estudados, mas como fio condutor para compreender o movimento contraditório das diversificadas ações políticas de artistas e intelectuais”, explica o autor.
A partir dessa chave, Ridenti percorre um cenário que inclui os Centros Populares de Cultura, o Teatro de Arena, o Oficina, o Cinema Novo, a música popular, a poesia e as ciências sociais, acompanhando artistas e intelectuais que buscaram aproximar criação estética e ação política. Nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque, Ferreira Gullar, Moacyr Felix, Glauber Rocha e Cacá Diegues aparecem lado a lado com personagens diretamente envolvidos na luta armada, como Carlos Marighella e Carlos Lamarca, em uma investigação sobre os vínculos entre produção cultural, engajamento e projetos revolucionários.
Os anos 1960 ocupam posição central no livro, momento em que a revolução parecia, para parte daqueles atores, uma possibilidade concreta. A experiência seria profundamente alterada pelo golpe de 1964, pelo endurecimento da ditadura e pelos anos de repressão, exílio e derrota política. O percurso avança pelos anos 1970 e alcança a década seguinte, quando a redemocratização trouxe novas liberdades, mas também colocou em xeque certezas, formas de militância e horizontes utópicos construídos nas décadas anteriores.
Para Michael Löwy, que comenta a obra, Ridenti consegue identificar uma unidade subterrânea entre manifestações muito diferentes daquele período. “A resposta para a charada está neste livro: o romantismo revolucionário”, escreve, ao relacionar esse espírito às canções, poemas, peças, filmes e experiências políticas que marcaram a cultura radical brasileira. Mais do que enquadrar produções distintas em uma mesma categoria, o conceito permite observar as afinidades existentes entre artistas e intelectuais socialmente comprometidos e compreender como suas obras dialogavam com expectativas de mudança histórica.
Organizado em seis capítulos interligados, mas que podem ser lidos também de maneira independente, o livro acompanha a formação desse imaginário sobretudo entre setores intelectualizados das classes médias e analisa suas contradições. Em muitos casos, a busca pelo “homem simples do povo” — percebido como depositário de valores ainda não corrompidos pela modernização capitalista — convivia com projetos de desenvolvimento e transformação conduzidos justamente por intelectuais, artistas e organizações políticas urbanas.
A nova edição incorpora atualizações feitas pelo próprio Ridenti. “Para a terceira edição, mais de um quarto de século após o lançamento do livro, fiz pequenos acertos, inseri um novo posfácio, algumas referências bibliográficas e preparei uma lista de canções dos anos 1960 e 1970 afinadas com a obra”, explica. A seleção musical está disponível no Spotify, em playlist criada pelo autor com o título Em busca do povo brasileiro, artistas da revolução, ampliando para a música o percurso histórico e cultural desenvolvido no livro.
Ao retornar a essas experiências décadas depois, o livro permite observar não apenas como artistas e intelectuais tentaram representar o país, mas também como suas obras foram atravessadas pelas expectativas, ambiguidades, derrotas e reinvenções de diferentes projetos de esquerda. O romantismo revolucionário surge, nesse percurso, não como fenômeno restrito ao passado, mas como tradição continuamente reelaborada diante de novos contextos históricos.
Sobre o autor – Marcelo Ridenti é professor titular de Sociologia na Unicamp. Pela Editora Unesp, publicou O segredo das senhoras americanas – intelectuais, internacionalização e financiamento na Guerra Fria Cultural (2022), Brasilidade revolucionária (2010), e O fantasma da revolução brasileira (2. ed., 2010), e o romance histórico Arrigo (Boitempo, 2023).
Título: Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da TV – 3ª edição revista e ampliada
Autor: Marcelo Ridenti
Número de páginas: 471
Formato: 16 x 23 cm
Preço: R$ 108
ISBN: 978-65-5711-369-1
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