Obra clássica investiga as bases conceituais da ciência ao propor uma nova compreensão da realidade física como estrutura de eventos
Quando as descobertas da física no início do século XX abalaram as certezas do materialismo clássico, tornou-se evidente que os modelos tradicionais já não eram suficientes para explicar o mundo. A teoria da relatividade e a mecânica quântica redesenharam profundamente a compreensão do universo, abrindo espaço para uma revisão conceitual de noções fundamentais como espaço, tempo e matéria. É nesse contexto de crise e reinvenção que se insere Análise da matéria, de Bertrand Russell, lançado pela Editora Unesp. A tradução ficou a cargo de Gabriel Cozzella.
“A tentativa de descobrir o resultado filosófico da física moderna é uma que, atualmente, enfrenta grandes dificuldades. Pois, enquanto a teoria da relatividade atingiu, pelo menos temporariamente, uma forma estável, a teoria dos quanta e da estrutura atômica está se desenvolvendo com tamanha rapidez que é impossível adivinhar que formato ela terá daqui a alguns poucos anos. Nessas circunstâncias, é necessário exercitar um bom julgamento sobre quais partes da teoria são definitivamente estáveis e quais são prováveis de serem modificadas num futuro próximo”, anotou o autor no prefácio, em 1927.
Distante de uma tentativa de sistematização definitiva da ciência, o livro se apresenta como um esforço para oferecer fundamentos conceituais mais sólidos ao pensamento científico. Russell identifica um problema central: o aparente abismo entre o mundo abstrato das equações físicas e a realidade concreta da experiência sensorial. Para enfrentá-lo, propõe uma revisão radical do próprio conceito de matéria, deixando de tratá-la como substância fixa para compreendê-la como uma construção lógica baseada em eventos inter-relacionados.
Com rigor analítico e clareza argumentativa, o autor busca evitar o que denomina uma “desordem metafísica”, mostrando que a física não precisa pressupor entidades materiais ocultas para validar suas teorias. Elétrons, prótons e demais partículas deixam de ser concebidos como objetos sólidos e passam a ser entendidos como agrupamentos de eventos conectados por relações estruturais e causais. Nesse quadro, o que importa não é a existência de uma substância última, mas a capacidade de descrever, com precisão, as relações que explicam os fenômenos observados.
Resultado de décadas de maturação intelectual, a obra situa-se na fronteira entre epistemologia, lógica e ciências naturais, integrando reflexões que dialogam com o surgimento da física moderna e com os desdobramentos da filosofia analítica, da qual Russell é um dos principais fundadores. Ao enfrentar os desafios conceituais colocados pela ciência de seu tempo, o filósofo oferece um exemplo de como a análise filosófica pode contribuir para a clarificação e o avanço do conhecimento científico.
Sobre o autor – Bertrand Russell (1872-1970) foi um dos pensadores mais admiráveis do século XX. Filósofo, matemático, inovador na área de educação, defensor da liberdade intelectual, social e sexual, militante da paz e dos direitos humanos, também é autor de prolífica, popular e influente obra que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1950. Pela Editora Unesp, tem publicados Por que os homens vão à guerra (2014), Sobre a educação (2014), Casamento e moral (2015), Educação e ordem social (2018) e Conhecimento humano (2018) e Introdução à filosofia matemática (2025).
Título: Análise da matéria
Autor: Bertrand Russell
Tradução: Gabriel Cozzella
Introdução: John G. Slater
Número de páginas: 540
Formato: 13,7 x 21 cm
Preço: R$ 128
ISBN: 978-65-5711-305-9
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