Correspondência de Euclides da Cunha ganha edição monumental com centenas de cartas inéditas

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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Resultado de duas décadas de pesquisa, Diálogo epistolar de Euclides da Cunha reúne 1.608 cartas, 918 delas inéditas, e recompõe pela primeira vez em um mesmo conjunto as mensagens escritas e recebidas pelo autor de Os sertões

Engenheiro, escritor, jornalista, funcionário público e integrante de algumas das principais discussões políticas e intelectuais de seu tempo, Euclides da Cunha deixou também uma vasta produção epistolar. Parte substancial desse material permanecia, porém, desconhecida. Diálogo epistolar de Euclides da Cunha, lançamento da Editora Unesp, reúne 1.608 cartas trocadas entre 1883 e 1909, das quais 918 são publicadas pela primeira vez. O volume foi organizado, com estabelecimento de texto, prefácio e notas, por Leopoldo M. Bernucci e Felipe Pereira Rissato.  

O levantamento oferece uma dimensão inédita da correspondência euclidiana. Das 1.074 cartas escritas pelo próprio autor reunidas na edição, 482 são integralmente inéditas; entre as 534 mensagens recebidas por ele, outras 436 nunca haviam sido divulgadas. Segundo os organizadores, o conjunto acrescenta 133% ao universo de 690 cartas anteriormente publicadas em livros ou de maneira esparsa.          

A pesquisa consumiu cerca de duas décadas e percorreu acervos públicos e particulares no Brasil e no exterior. Além da localização dos documentos, o trabalho envolveu desafios paleográficos: as cartas recebidas por Euclides foram redigidas por mais de 450 pessoas, muitas delas em manuscritos de difícil leitura. A revisão também permitiu corrigir erros de transcrição presentes em edições anteriores da correspondência do escritor.          

Ao reunir remetente e destinatário em uma mesma sequência, o livro permite reconstruir diálogos que antes apareciam fragmentados. Entre os interlocutores estão Reynaldo Porchat, Francisco de Escobar, Vicente de Carvalho, José Verissimo, Oliveira Lima e Alberto Rangel. Literatura é um dos assuntos recorrentes, mas as trocas também passam por ciência, política, cultura, história e questões pessoais. Para Bernucci e Rissato, a documentação oferece “uma visão – a mais completa até agora – da atividade comunicativa entre Euclides e seus interlocutores”.     

As cartas acrescentam ainda informações à biografia do autor de Os sertões. Entre as descobertas mencionadas no prefácio estão sua matrícula na Escola de Medicina, episódios de intriga profissional quando trabalhava na Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo, novos detalhes sobre os riscos enfrentados durante a viagem ao Purus e a ajuda que prestou a Dinorah, irmão de Dilermando de Assis, para ingressar na Escola Naval. O material também registra projetos literários e intelectuais que Euclides não chegou a concluir, entre eles As origens do Brasil contemporâneo, História sul-americana e Um paraíso perdido.          

A expedição amazônica de 1905 ganha particular relevo. Apenas daquele ano, a edição publica 356 cartas inéditas, com registros das tensões entre Euclides e Pedro Alejandro Buenaño, chefe da comissão peruana que acompanhou a missão brasileira de reconhecimento do Alto Purus. Surgem discussões sobre fronteiras, cartografia, condições da expedição e até denúncias de escravização de peruanos em seringais brasileiros. O conjunto preserva também correspondência sigilosa entre Euclides e o barão do Rio Branco, incluindo cartas criptografadas.          

Os documentos mostram também um Euclides menos conhecido pela imagem pública do grande escritor. Ao lado do estilista cuidadoso e do homem envolvido com questões nacionais, aparecem o funcionário insatisfeito com a burocracia, o amigo bem-humorado, o homem preocupado com a saúde e as epidemias, as dificuldades financeiras e profissionais e os movimentos da política republicana. Em cartas íntimas, formalidade e autocontrole cedem espaço ao humor, à ansiedade e à franqueza; nas dirigidas a superiores, por outro lado, o cuidado retórico e a construção formal revelam outra faceta de sua escrita.          

O resultado é também uma fonte para a compreensão do Brasil entre o final do Segundo Reinado e os primeiros anos da República. Ao trazer para o mesmo conjunto as cartas escritas e recebidas por Euclides, Diálogo epistolar de Euclides da Cunha permite acompanhar não apenas a trajetória de um dos principais autores brasileiros, mas a rede intelectual, política e cultural que o cercava.     

Sobre os organizadores

Leopoldo M. Bernucci – É professor titular de estudos latino-americanos na Universidade da Califórnia, em Davis. Foi professor visitante na USP e também lecionou nas universidades de Yale, do Colorado e do Texas (EUA). É autor de Historia de un malentendido (Peter Lang), A imitação dos sentidos (Edusp), e organizador de Discurso, ciência e controvérsia em Euclides da Cunha (Edusp), entre outros livros.

Felipe Pereira Rissato – Pesquisador independente, publicitário de formação e técnico bancário (CEF). Atua em pesquisas relacionadas aos escritores Euclides da Cunha e Machado de Assis, focando em levantamentos de textos desconhecidos (nunca publicados em livro ou inteiramente inéditos) e de iconografia fotográfica. De Euclides, decifrou o primeiro pseudônimo utilizado pelo escritor: Ícaro, esquecido por mais de 130 anos em obras publicadas em ainda em 1883, aos 17 anos de idade. De Machado, descobriu uma crônica anônima, publicada em 1860, aos 21 anos de idade, na qual o escritor lamenta a perda da mãe. É autor de Iconografia de Euclides da Cunha (Instituto Memória).

Título: Diálogo epistolar de Euclides da Cunha
Organização, estabelecimento de texto, prefácio e notas: Leopoldo M. Bernucci, Felipe Pereira Rissato
Coordenação: Leopoldo M. Bernucci e Francisco Foot Hardman
Número de páginas: 3925
Formato: 16 x 23 cm
Preço: R$ 240
ISBN: 978-65-5714-603-3 (EPUB)

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