Curso de Durkheim sobre Hobbes chega ao Brasil em edição inédita

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domingo, 13 de setembro de 2026

Notas registradas por Marcel Mauss entre 1894 e 1895 revelam como a leitura do filósofo inglês ajudou Durkheim a formular questões centrais sobre Estado, coesão social e vida coletiva

Antes de algumas das formulações que consolidariam a sociologia como disciplina, Émile Durkheim fez da sala de aula um espaço de experimentação intelectual. Entre 1894 e 1895, ao preparar candidatos para o concurso francês de agrégation, o sociólogo dedicou um curso à obra de Thomas Hobbes. As aulas foram frequentadas e anotadas por Marcel Mauss, seu sobrinho e aluno, e chegam agora pela primeira vez ao público brasileiro em Hobbes no concurso de agregação: um curso de Émile Durkheim frequentado e anotado por Marcel Mauss, lançamento da Editora Unesp, com tradução de Celi Hirata e estabelecimento de edição e apresentação de Jean-François Bert.

As notas registram um momento decisivo da trajetória de Durkheim. O pesquisador havia acabado de publicar seus trabalhos sobre Montesquieu e sobre a divisão do trabalho social e se ocupava de um problema que atravessaria sua obra: o que mantém uma sociedade unida? A leitura de Hobbes oferecia um contraponto especialmente fértil. Se o filósofo inglês pensara a ordem política sob o impacto das guerras civis do século XVII, Durkheim se valia dessa tradição para refletir sobre os conflitos, a fragilidade dos vínculos coletivos e o avanço da vida privada na sociedade moderna.

Ao longo do curso, temas como a natureza do Estado, a organização da família e o papel da religião aparecem ligados a uma questão mais ampla: como é possível viver em sociedade? Durkheim reconhece a importância da inovação teórica de Hobbes, mas também demarca diferenças fundamentais em relação ao individualismo do filósofo inglês. Para a sociologia nascente, a sociedade não poderia ser compreendida apenas como resultado da soma ou do acordo entre indivíduos; possuía formas de organização e dinâmicas próprias.

Essa leitura permite observar, ainda em processo de elaboração, algumas das fronteiras que Durkheim buscava estabelecer entre filosofia política e sociologia. Hobbes funciona menos como uma autoridade a ser seguida do que como interlocutor diante do qual o sociólogo francês testa conceitos, identifica limites e formula problemas que seriam centrais para suas investigações sobre os laços que tornam possível a vida coletiva.

O volume oferece também uma perspectiva singular sobre a própria circulação das ideias. O texto que chega ao leitor não nasceu originalmente como livro, mas das anotações de um estudante que mais tarde se tornaria um dos nomes fundamentais da antropologia e da sociologia. A presença de Marcel Mauss dá às páginas uma segunda dimensão: elas registram não apenas o pensamento de Durkheim em construção, mas também uma relação de transmissão intelectual entre professor e aluno.

Organizado por Jean-François Bert, Hobbes no concurso de agregação permite acompanhar de perto a oficina intelectual de Durkheim em um período decisivo para a consolidação de seu pensamento. As aulas mostram como a releitura de um autor do século XVII se tornou instrumento para investigar questões próprias da sociedade moderna e para delimitar o campo de uma ciência então em formação.

Sobre o autor – Émile Durkheim (1858-1917) foi um dos principais fundadores da sociologia moderna. Autor de obras seminais como O suicídio e As formas elementares da vida religiosa, estabeleceu o rigor metodológico e o objeto de estudo da disciplina, exercendo influência duradoura sobre as ciências sociais e a educação no século XX.

Título: Hobbes no concurso de agregação: um curso de Émile Durkheim frequentado e anotado por Marcel Mauss
Autor: Émile Durkheim
Estabelecimento de edição e apresentação: Jean-François Bert
Tradução: Celi Hirata
Número de páginas: 70
Formato: 11 x 18 cm
Preço: R$ 39
ISBN: 978-65-5711-360-8

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