Gênese Andrade revisita 'Pau Brasil' no centenário da obra de Oswald de Andrade

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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Em entrevista ao canal da Editora Unesp, pesquisadora comenta a nova edição de Pau Brasil 100 anos

Em entrevista ao canal da Editora Unesp no YouTube, a professora, pesquisadora e tradutora Gênese Andrade fala sobre Pau Brasil 100 anos: o manifesto e o livro no calor da hora, obra que revisita um dos momentos decisivos da literatura brasileira. Publicada pela Editora Unesp, a edição recupera o primeiro livro de poemas de Oswald de Andrade, lançado originalmente em 1925, e o recoloca em circulação no contexto de seu centenário.

Segundo Gênese, retornar a Pau Brasil cem anos depois permite observar como Oswald, em diálogo com Tarsila do Amaral e com as vanguardas europeias, transformou elementos associados à história colonial, à natureza, à mestiçagem e à cultura brasileira em um programa estético voltado à criação de uma “poesia de exportação”. A obra, lembra a pesquisadora, nasce de um projeto artístico que pretendia levar a arte brasileira ao exterior sem deixar de revisitar criticamente o passado colonial.

A entrevista também destaca o subtítulo da nova edição: “o Manifesto e o livro no calor da hora”. Para Gênese, olhar para Pau Brasil não apenas como monumento consagrado, mas como obra recebida em meio a polêmicas, críticas e debates da década de 1920, permite compreender melhor sua força de ruptura. “Esses livros não foram importantes só naquele momento. Eles são clássicos, continuam nos permitindo repensar várias questões, não só estéticas, mas também do contexto sociocultural”, afirma.

A edição organizada por Gênese Andrade reúne o fac-símile da primeira publicação, manuscritos, esboços das ilustrações de Tarsila do Amaral, cartas, dedicatórias, textos críticos, notas de imprensa e documentos que reconstituem a circulação e a recepção de Pau Brasil em seu tempo. Entre os destaques, a pesquisadora menciona um artigo de Mário Graciotti, publicado em 1925, que parodia o Manifesto da Poesia Pau Brasil e defende a oralidade, além de documentos que ajudam a pensar a autoria da célebre capa atribuída a Tarsila.

Ao final da conversa, Gênese Andrade observa que a leitura de Pau Brasil hoje exige celebração e revisão crítica ao mesmo tempo. Questões como oralidade, língua brasileira, exploração colonial, violência contra povos indígenas e população negra, além da permanência da obra no imaginário artístico contemporâneo, mostram que o livro segue provocando novas interpretações. “Não é só exaltação, é ver o quanto ele tratou de questões que continuam sendo atuais”, resume a pesquisadora.

Assista à entrevista completa abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=YXIP4xxtcyc&t

Íntegra da entrevista

Diego Moura: Hoje conversamos com Gênese Andrade, professora universitária, pesquisadora independente, tradutora e uma das principais estudiosas do modernismo brasileiro. Pela Editora Unesp, ela organizou Arte do Centenário e outros escritos, de Oswald de Andrade, publicado em 2022, e também 1923: os modernistas brasileiros em Paris, lançado em 2024.

Agora, a professora Gênese volta ao universo oswaldiano com Pau Brasil: 100 anos: o Manifesto e o Livro no calor da hora, obra que revisita um dos momentos decisivos da literatura brasileira.

Publicado originalmente em 1925, Pau Brasil transformou o nome de uma árvore ligada à exploração colonial em um programa estético, político e cultural. Com o Manifesto da Poesia Pau Brasil e os poemas de Oswald de Andrade, surgia a proposta de uma poesia capaz de redescobrir o Brasil por sua própria linguagem, com humor, síntese, invenção e espírito crítico.

A nova edição organizada pela professora Gênese traz o fac-símile da primeira publicação, além de manuscritos, esboços das ilustrações e da capa de Tarsila do Amaral, ao lado de cartas, textos críticos, notas de imprensa e documentos que ajudam a reconstituir a recepção da obra no calor da década de 1920.

Professora, muito obrigado pela sua disponibilidade. A senhora está aqui conosco hoje em nome da Editora Unesp, e eu agradeço.

Gênese Andrade: Olá, tudo bem, Diego? Eu agradeço o convite para falar deste livro que acaba de sair do forno, da gráfica. Para mim, é sempre um prazer e uma honra trabalhar com a Editora Unesp, publicar e ver a circulação da obra, que sempre me deixa muito feliz.

É uma editora muito respeitada e que faz um trabalho impecável de ponta a ponta, desde toda a produção até a divulgação e a chegada do livro aos leitores.

D.M.: Legal, professora. Vou começar perguntando: cem anos depois, por que é importante retornar ao livro Pau Brasil? O que essa obra ainda tem a dizer ao Brasil de hoje?

G.A.: Pau Brasil é o primeiro livro de poemas do Oswald de Andrade, publicado em 1925, mas, na verdade, começa a ser concebido em 1924.

Nesse momento, Oswald estava em relacionamento com Tarsila. O casamento acontece só em 1926, mas eles tinham passado uma temporada em Paris, ela estudando pintura e ele circulando no meio intelectual e cultural.

Essa circulação, esse aprendizado, esse contato com a vanguarda europeia, principalmente por intermédio de Blaise Cendrars, que eles conheceram em Paris em 1923, faz com que comecem a ver o quanto o elemento brasileiro autóctone, a mestiçagem e a natureza estavam sendo valorizados na Europa como algo exótico.

E Cendrars, quando vem ao Brasil em 1924, chama a atenção deles para esses elementos que estão aqui e que não eram devidamente valorizados. Então, eles começam a pensar na concepção de uma arte nacional que dialogue esteticamente com as vanguardas europeias, e Oswald pensa na ideia da poesia para exportação.

Ele fala, em outros textos, em outro momento, que nós exportamos muita coisa: exportamos café, exportamos açúcar. Então, ele revisita de forma crítica o passado colonial e propõe uma poesia de exportação, porque tinha um projeto, junto com Tarsila, de levar a arte brasileira para o exterior, principalmente para a Europa.

Esse livro, precedido pelo manifesto de 1924, começa a ser pensado em 1924, mas só é publicado em 1925. É o primeiro movimento nesse sentido.

D.M.: O subtítulo da edição publicada agora pela Editora Unesp é O Manifesto e o Livro no calor da hora. O que muda quando olhamos para Pau Brasil não como um monumento consagrado, que cem anos depois a obra tende a se tornar, mas como uma obra recebida no meio dos debates, das críticas e das polêmicas que cercavam o movimento modernista de então?

G.A.: Continuando ainda na pergunta anterior, foi no contexto das vésperas do centenário do livro que achei importante trazê-lo de volta à circulação, porque não tínhamos Pau Brasil disponível individualmente.

Houve uma edição da Editora Globo, na qual colaborei, em torno de 2008, 2009, e depois a Companhia das Letras publicou, em 2017, o conjunto da poesia de Oswald, e não Pau Brasil individualmente.

Então, quem quisesse o livro Pau Brasil individualmente teria que comprar a Caixa Modernista, que foi reeditada no fim de 2022 e traz o fac-símile de Pau Brasil, ou recorrer às edições anteriores da Editora Globo, a primeira dos anos 1990 e depois essa outra de 2008, que estão fora de circulação.

A primeira ideia foi trazer esse livro de volta com a fortuna crítica dele, porque, como falei, é o primeiro livro de poemas de Oswald de Andrade e provocou muito debate, muita discussão. Fazia três anos que tínhamos tido a Semana de Arte Moderna, que foi algo muito polêmico. A poesia foi muito discutida em 1922, quando saiu também Pauliceia desvairada, de Mário de Andrade.

Então, quando a poesia volta em 1925, provoca de novo muita discussão, porque ainda havia um vínculo maior da crítica e do público leitor com as formas fixas, com a poesia parnasiana e simbolista. A poesia feita nos anos 1920 ainda era um pouco rejeitada quando recorria a essas novidades do verso livre, dos ecos da vanguarda europeia, das construções metafóricas, da referência ao progresso e à modernização das cidades.

Achei importante, assim como revisitamos a Semana de Arte Moderna cem anos depois, revisitar também este livro cem anos depois. E, curiosamente, à medida que avancei na pesquisa, que eu já tinha começado há muito tempo, comecei a perceber que havia muitos textos críticos que tinham ficado pelo caminho, que ninguém conhecia, publicados em jornais e revistas em 1925, e que não foram mais recuperados.

Esse conjunto permitia ver como o livro e o manifesto foram recebidos em seu momento e, ao mesmo tempo, permitia ver que muitas críticas que estavam ali, em alguns casos até provocações, voltam nas leituras do século XXI.

A questão da relação dos nossos artistas e do nosso público com a questão indígena, com a questão do negro, com o colonialismo, tudo isso aparece nas críticas e nos artigos, às vezes de forma mais lúcida, mais positiva, às vezes de forma não tão positiva. A partir daí, podemos reler o livro com os parâmetros do século XXI.

Acho que é isso que é importante: ver que esses livros não foram importantes só naquele momento. Eles são clássicos, continuam nos permitindo repensar várias questões, não só estéticas, mas também do contexto sociocultural.

D.M.: É interessante justamente nesse contexto, porque Pau Brasil é o nome de uma árvore associada ao primeiro ciclo da exploração colonial. Oswald transforma esse símbolo com uma inventividade cultural. Como a senhora interpreta esse gesto de Oswald, de escolher justamente essa planta como tema e nome do manifesto?

G.A.: Acho uma ideia muito inteligente, porque, quando estudamos história, há toda uma reflexão sobre o pau-brasil. Antes, pelo menos, agora menos, não era uma reflexão crítica; era um orgulho de essa madeira ser importante, ser exportada e valorizada.

Oswald traz isso no sentido de valorizar a arte, como foi valorizada a árvore, mas também faz a crítica da exploração e da extinção da árvore. Isso também vai aparecer na crítica.

Curiosamente, ainda hoje vemos a discussão em torno do pau-brasil, praticamente extinto no Brasil, o contrabando que ainda há e a discussão sobre o que usar para os arcos de violino. Houve até reportagens mais ou menos recentes em torno disso.

Então, é muito inteligente Oswald fazer isso, porque é uma forma de revisitar a história e chamar a atenção para o que ele está fazendo, de uma maneira polêmica. A crítica nem sempre entendeu o olhar crítico dele. Achava que era uma exaltação ao período colonial. Não era. Era uma estratégia.

Isso rendeu muitas piadas, muita ironia, não só porque o livro foi publicado em Paris, então se falava: como tratar da questão nacional e publicar o livro fora? Mas também havia a questão do significado da madeira, pau-brasil, relacionado ao vermelho, à brasa. E, nessa época, nos anos 1920, a palavra “pau”, em termos de gíria, significava “chato”. Então, quando se falava “poesia pau”, era “poesia chata”, e isso era o gancho para alguns críticos.

Isso rendeu nos jornais em torno de 50 textos, que atacavam ou defendiam a partir de vários lugares, de vários olhares, inclusive se aproveitando da própria expressão, em seu sentido literal, histórico e cotidiano, coloquial.

A questão da língua falada, das expressões populares, também é um tema do livro. Como já falei várias vezes, o livro começa com uma seção chamada “História do Brasil”. Então, de alguma maneira, Oswald também se propõe a revisitar a história do Brasil.

É uma das seções mais discutidas e comentadas, porque ele simplesmente pega textos dos cronistas sobre o Brasil, da época da chegada dos portugueses aqui, e coloca em versos: a chamada poesia ready-made. Há seções subsequentes, como “Postes da Light” e “Poemas da colonização”, que trazem expressões da oralidade.

Um dos temas do Manifesto da Poesia Pau Brasil é a distância entre o português que aprendemos, e que eles aprendiam ainda muito mais vinculado ao português de Portugal, e a exigência de que a escrita fosse em português de Portugal, quando a oralidade não era.

A oralidade se distancia muito do português, da gramática que naquela época era imposta, e os acadêmicos da Academia Brasileira de Letras, que Oswald também atacava, fizeram críticas muito nesse sentido: os textos que ele escrevia na oralidade seriam quase incompreensíveis.

Então, também é interessante ver o que os poemas trazem em si mesmos e fazer uma leitura mais detida dessas possibilidades de temas que o livro reúne.

D.M.: A senhora menciona essa questão da oralidade. Uma das citações que, se não me engano, está na orelha do livro, ou na apresentação, é: “O jornal só fala de Pau Brasil, as moças também”. Acho que isso sintetiza um pouco a ideia.

G.A.: Sim, exatamente. Isso é um trecho de uma carta que Oswald manda para Tarsila. Ele está no Rio de Janeiro, logo depois de ter chegado da Europa com os exemplares do livro, e a polêmica está fervendo.

A polêmica começa em 1924, quando o manifesto é publicado. Depois, em outubro, quando o manifesto é publicado na Revista do Brasil e alguns poemas são publicados, mesmo antes de o livro ser impresso, que só sai da gráfica em agosto de 1925, a polêmica já tinha começado nos jornais.

Também em junho de 1925, antes de o livro chegar, saem nos jornais outros poemas e uma entrevista com Oswald de Andrade, que motiva toda a discussão. É em torno dessa entrevista, na qual aparecem alguns poemas que trazem esses temas que já mencionei, que começa a discussão nos jornais, principalmente um ataque a Tristão de Ataíde.

Uma das questões, mas não a única, é essa: a oralidade e o fato de o livro importar a vanguarda europeia para tratar do tema nacional.

D.M.: A edição, como a senhora mencionou, traz o fac-símile da primeira publicação, manuscritos, cartas, textos críticos e documentos da época. O que esse conjunto revela sobre os bastidores da criação, da circulação e da recepção de Pau Brasil?

Queria acrescentar também: se a senhora puder destacar um texto ou algum elemento presente no livro que chame mais a atenção, seja pelo desconhecimento ou pelo ineditismo da publicação em livro.

G.A.: Vou começar pelo fim. Queria mencionar um artigo de Mário Graciotti, que é muito curioso. O texto se chama “O momento artístico: arte marco da meia légua”.

Mário Graciotti é um jornalista sobre o qual se sabe muito pouco. Ele publicou em vários jornais, em São Paulo, no jornal A Plateia, também com pseudônimo, e depois publicou no jornal O Dia, de Curitiba, alguns textos retomados e outros novos.

Nesse artigo, “O momento artístico: arte marco da meia légua”, ele faz uma espécie de manifesto, parodiando o Manifesto Pau Brasil, mas ao mesmo tempo defendendo a questão da oralidade e usando uma língua que atribui a um pseudônimo, a uma figura que inventa, chamada Brasilino Tira-Prosa.

É muito engraçado ele criar essa figura e dizer que ela fez um manifesto que parodia o Pau Brasil e defende a oralidade. E ele destaca principalmente não a língua falada pelos mestiços brasileiros, descendentes dos africanos que vieram para o Brasil, mas a língua falada pelos descendentes de imigrantes do Brás.

Ele fala dessa oralidade que está lá e que vai aparecer só em 1926 no livro Brás, Bexiga e Barra Funda, de Alcântara Machado, ou em Parque Industrial, da Pagu, em 1933.

Então, esse manifesto, se pensarmos na possibilidade de lê-lo e compará-lo com o Manifesto da Poesia Pau Brasil, é muito curioso. Ninguém conhece. É a primeira vez que ele sai em livro, depois de ter sido publicado no jornal A Plateia, em outubro de 1925. Acho que isso é uma contribuição que o livro traz, no sentido de permitir revisitar o manifesto e toda essa questão.

Quanto aos demais documentos, quis fazer uma espécie de dossiê. Reuni os manuscritos dos poemas, os que foram encontrados até o momento, que são bem poucos. São manuscritos de cinco poemas: “Atelier”, “O combate”, “Contrabando” e mais um ou dois. São 11 manuscritos no total.

Trouxe um rascunho de uma das ilustrações do livro. É importante dizer que esse livro não é composto só pelos poemas; ele é ilustrado por Tarsila do Amaral. Essas ilustrações são muito importantes: são dez ilustrações, uma na abertura do livro e nove abrindo cada uma das seções, nas páginas de título.

Ao contrário dos poemas, cujos manuscritos se perderam, os rascunhos dessas ilustrações permaneceram nos estudos. Estão quase todos, exceto um, na coleção de artes visuais da Prefeitura de São Paulo, que fica no Centro Cultural São Paulo.

Trouxe um desses rascunhos e trouxe também a discussão nas cartas, fragmentos de cartas trocadas por Mário de Andrade com Manuel Bandeira, Renato Almeida e Carlos Drummond de Andrade, que mostram não só os bastidores do que está nos artigos, porque eles também discutiam entre si, nas cartas, o que apresentavam nos artigos.

O livro traz também os rascunhos e fragmentos das cartas de Oswald para Tarsila, contando o que ele escreveu, o que vai publicar, ele indo para Paris levando os manuscritos, ele voltando, ele recebendo em Paris as notícias do que estava saindo nos jornais como crítica. Então, podemos acompanhar toda essa discussão dos bastidores da obra.

Reuni também várias dedicatórias de Oswald nos primeiros exemplares: a dedicatória para Mário de Andrade, para Drummond, para Blaise Cendrars, que foi quem intermediou a publicação desse livro na editora Sans Pareil, a mesma que publicou Feuilles de route, de Blaise Cendrars, em 1924.

São dedicatórias afetuosas, mas também provocações. São muito engraçadas as dedicatórias. Inclusive a que ele faz para um dos acadêmicos da Academia Brasileira de Letras: Alberto de Oliveira, poeta parnasiano ainda em atividade, em meio a toda a polêmica dos modernistas com os parnasianos.

Oswald escreve assim para ele, no exemplar do livro: “Alberto de Oliveira, detentor do facho na corrida da poesia nacional, o menos classificado da geração que pretende, Oswald de Andrade”.

Essa dedicatória dialoga com outro texto que está no livro, uma nota de imprensa de quando Oswald de Andrade se candidata à Academia Brasileira de Letras. Ele se candidata fazendo piada. Na verdade, sabia que não ia ganhar e nem mesmo, naquele momento, entrar. Então, nessa candidatura que é uma piada, também faz piada com a própria Academia.

Esse texto também está lá. Há outras notas de imprensa que comentam: “Oswald chegou ontem da Europa e trouxe o livro”, e fazem piada com o modo como o livro seria recebido.

Como eu dizia, a ideia era trazer um dossiê do livro, todo o conjunto que o cerca: seu processo e também a imagem das primeiras publicações na Revista do Brasil, o manifesto no Correio da Manhã. Isso tudo mostra que o livro foi feito durante um período mais ou menos longo.

Começa em 1924. O manifesto é de março de 1924. Os primeiros poemas aparecem nas revistas em outubro de 1924, já junto com o prefácio de Paulo Prado. Isso permite pensar que já havia um conjunto grande de poemas escritos em 1924, embora não saibamos quantos. Esse prefácio abre o livro Pau Brasil, a edição de 1925.

Podemos acompanhar o que aconteceu depois, desde as dedicatórias, desde o que está nas cartas, desde o que saiu na imprensa, durante todo o ano de 1925. Incluí dois textos posteriores. Um publicado na Revista do Brasil em 1926, porque a revista nessa época tinha uma periodicidade mais longa, então talvez esse texto devesse ter saído no fim de 1925 e não saiu. E um texto que é um balanço muito importante, muito citado, que só sai em 1927, escrito por João Ribeiro, quando faz uma resenha do segundo livro de poemas de Oswald, Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade.

Ele começa essa resenha falando de Pau Brasil, publicado dois anos antes. Nesse momento, já faz um balanço da poesia de Oswald e diz que Pau Brasil marcou uma época na poesia nacional. Por isso, embora não fosse de 1925, achei importante incluir.

Há ainda um documento que acho dos mais importantes: uma espécie de boneco da capa do livro Pau Brasil. Essa capa não é assinada. Nos textos críticos de 1925, não há menção à capa. A única menção mais explícita que conhecemos é de Manuel Bandeira, em uma carta a Mário de Andrade, mas ele não fala da autoria.

Tarsila é muito pouco citada nessas críticas, embora a crítica contemporânea fale sempre do livro a quatro mãos, por causa das ilustrações dela. Em 1925, não. São dois ou três textos que falam das ilustrações e, nas cartas, duas ou três cartas que falam das ilustrações e uma carta que fala da capa.

A partir dos anos 1990, essa capa é atribuída a Tarsila, mesmo não sendo assinada. Só que ninguém nunca disse por quê. Não há nenhum documento. Ela não diz, Oswald não diz, nem nos anos 1920, nem depois.

Comecei a refletir sobre isso quando estava revisitando o modernismo para as publicações de 2022. Em um álbum de Tarsila do Amaral, um álbum de viagem, com fotos, canhotos de passagens, ingressos de espetáculos a que ela assistiu em Paris e algumas coisas que guardou da viagem que fez em 1926 com Oswald ao Oriente, há um pedacinho de papel, uma espécie de esboço do miolo da capa. Onde está escrito “Ordem e Progresso” na bandeira, ela escreve “Pau Brasil”, e a letra não é de Oswald.

Isso me fez interpretar esse pedacinho de papel como um pedaço do rascunho da capa. Isso permite, de alguma maneira, confirmar que a capa é dela, embora seja apenas um vestígio, não uma assinatura, e embora do lado desse papelzinho, no álbum, não haja nenhuma anotação.

Acho que é uma reflexão importante, porque essa capa é muito significativa, muito reproduzida sempre que se fala de modernismo e de Oswald de Andrade. É uma capa que foi muito impactante ao longo da fortuna crítica do modernismo, tanto do ponto de vista das artes visuais quanto do design gráfico.

Tarsila, no começo, foi ignorada. Depois, a capa foi atribuída a ela sem nenhuma comprovação. Ainda não temos uma comprovação definitiva, mas pelo menos temos algo que permite confirmar essa hipótese.

D.M.: De forma indicial.

G.A.: Exatamente.

D.M.: Professora, por último: em 1925, Pau Brasil foi um livro de ruptura. Hoje, que tipo de leitura ele exige de nós, leitores de 2026? É uma leitura que vai mais no caminho da celebração, da revisão crítica ou, no fim, um pouco de tudo isso ao mesmo tempo?

G.A.: Acho que as duas coisas.

Em primeiro lugar, o fato de Oswald continuar sendo muito lido e relido, tanto em termos de inventividade estética. O livro Pau Brasil já motivou, por exemplo, o livro O pau do Brasil, de Wilson Alves-Bezerra, que na capa traz uma paródia da capa de Pau Brasil e faz uma discussão política do momento do impeachment da Dilma.

Vemos também a questão da língua brasileira e da oralidade voltando nas reflexões mais recentes, seja em Caetano Galindo, seja no livro O céu da língua, de Gregório Duvivier, revisitando essa questão da língua brasileira, da fala cotidiana, da poesia, da palavra, do encantamento com a linguagem.

Isso tudo está lá em Pau Brasil, colocado de outra maneira. Há uma seção chamada “Secretário dos amantes”, na qual Oswald coloca em versos trechos de cartas que trocou com Tarsila. Isso está lá no Pau Brasil de 1925.

Então, o livro é muito atual, trazendo essas discussões. Na medida em que podemos revisitá-lo discutindo temas que estão na pauta hoje, trata-se de uma revisão crítica, de um olhar crítico. Não é só exaltação. É ver o quanto ele tratou de questões que continuam sendo atuais, e que o olhar contemporâneo revisita e enriquece.

Tanto a questão da língua e da oralidade quanto a questão da exploração colonial. Antes se falava em descoberta do Brasil; hoje já não se fala mais, fala-se em invasão, em exploração. Isso também está lá. Quando Oswald seleciona os textos dos cronistas e os coloca em versos, ele não está exaltando, inclusive porque dá títulos paródicos a esses trechos. Então não é exaltação; é um olhar crítico.

Há também a questão indígena, a questão de quanto a colonização foi violenta. Trago ainda para a capa do livro uma obra de Thiago Honório, artista contemporâneo que adoro. Ele pega um exemplar da edição fac-similar do livro Pau Brasil, perfura e atravessa o miolo da capa com um pedaço da madeira pau-brasil.

É uma obra muito significativa por transformar o livro em um objeto artístico e, ao mesmo tempo, quando introduz a madeira, não só materializa o próprio título do livro como esse gesto também recupera a violência da exploração colonial, a violência da exploração da árvore, mas também da exploração humana, da questão da mão de obra, da matança que houve tanto no caso dos indígenas quanto no caso da escravização dos negros.

Então, é muito potente essa metáfora, seja quando proposta por Oswald de Andrade, seja quando revisitada por um artista contemporâneo como Thiago Honório. Acho que o fato de um artista contemporâneo revisitar essa obra dessa maneira também mostra o quanto ela é atual e o quanto suscita reflexões que começaram lá e que hoje são recolocadas a partir de vários pontos de vista.

D.M.: Ainda rende muito, não é?

G.A.: Rende muito, exatamente.

D.M.: Professora, mais uma vez, em nome da Editora Unesp, agradeço pela sua disponibilidade e muito obrigado por compartilhar essa riqueza do universo oswaldiano conosco.

G.A.: Muito obrigada. Eu agradeço muito a possibilidade de falar um pouco mais sobre o livro e aproveito a ocasião para convidar todos os que vão nos assistir para o evento de lançamento, que será no dia 1º de setembro, na Biblioteca Mário de Andrade.

Vocês terão mais informações sobre isso no próprio site da Unesp ou da Biblioteca Mário de Andrade. Muito obrigada.

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