Em entrevista ao canal da Editora Unesp, historiador fala sobre interferência norte-americana, democracia brasileira, documentário baseado em Além do Carnaval e ópera inspirada em Esquecer? Nunca mais!
Em entrevista ao canal da Editora Unesp no YouTube, o historiador James N. Green, professor emérito da Universidade Brown e autor de obras fundamentais para compreender a história política, a memória democrática e a luta por direitos LGBT+ no Brasil, analisou o momento atual das relações entre Brasil e Estados Unidos. Com mais de cinco décadas de vínculo com o país, Green comentou as pressões do governo Donald Trump sobre a política brasileira e os riscos de interferência no processo eleitoral.
Para o pesquisador, o cenário exige atenção. “É um grito de alerta para todo mundo que está preocupado com a democracia brasileira”, afirma. Green compara o momento atual a episódios anteriores de atuação norte-americana na política brasileira, lembrando a interferência dos Estados Unidos nos anos 1960 e o apoio ao golpe militar de 1964. Segundo ele, a diferença é que, agora, há uma articulação explícita da extrema direita internacional em torno das eleições no Brasil.
A conversa também abordou dois projetos recentes do historiador ligados a livros publicados pela Editora Unesp. O primeiro é a adaptação de Esquecer? Nunca mais! para a ópera. A obra recupera a história de Marcos Arruda, preso e torturado durante a ditadura militar, a partir do testemunho de sua mãe, Lina Penna Sattamini. Green explica que escolheu a ópera por ser uma linguagem capaz de expressar emoções profundas: “Ópera é uma mídia maior do que a realidade, onde você pode expressar emoções muito profundas, de uma maneira expansiva”.
Outro projeto é o documentário baseado em Além do carnaval, obra pioneira sobre a homossexualidade masculina no Brasil no século XX. Lançado originalmente em 1999 e publicado no Brasil pela Editora Unesp, o livro chega ao audiovisual com uma proposta ampliada, reunindo entrevistas com nomes como Erika Hilton, Jean Wyllys, Mônica Benício e Ney Matogrosso. Para Green, o filme busca mostrar a contradição entre os espaços de liberdade conquistados pelo movimento LGBTQIA+ e a permanência da repressão, da discriminação e da violência no país.
Ao final da entrevista, o historiador reflete sobre o que ainda o surpreende no Brasil. Green destaca a força dos movimentos sociais e populares, que seguem mobilizados em defesa de direitos, mas lamenta a polarização política e a aproximação de setores conservadores com a extrema direita. “O meu namoro com o Brasil já tem 53 anos”, resume o pesquisador, que segue envolvido em novos projetos sobre a história política brasileira, a ditadura militar e os movimentos sociais.
Assista à entrevista completa:
https://www.youtube.com/watch?v=ey34cV2v0rk
Confira a transcrição da conversa:
Diego Moura: Bom, hoje, aqui no canal da Editora Unesp no YouTube, conversamos com o professor James Green, um dos mais importantes brasilianistas em atividade e autor de obras fundamentais para compreender o Brasil contemporâneo, especialmente nos campos da história política, da memória democrática e da luta por direitos LGBT+.
Professor emérito da Universidade Brown, James Green construiu uma relação de mais de cinco décadas com o Brasil. Viveu aqui durante a ditadura, acompanhou de perto a formação de movimentos sociais e ajudou a revelar histórias que por muito tempo permaneceram à margem da historiografia tradicional.
Nesta entrevista, vamos falar sobre o momento atual das relações entre Brasil e Estados Unidos, em meio às discussões sobre pressões do governo Trump no processo eleitoral brasileiro, e também sobre dois projetos que ligam história política e arte: um documentário baseado no livro Além do Carnaval, obra publicada pela Editora Unesp e pioneira ao discutir a homossexualidade masculina no Brasil no século XX; e uma ópera baseada no livro Esquecer? Nunca mais!, também publicado recentemente pela Editora Unesp, que traz um testemunho sobre ditadura, tortura, exílio e memória.
Professor, em primeiro lugar, muito obrigado por estar disponível para a nossa conversa.
James Green: É sempre um prazer trabalhar com você e com qualquer pessoa ligada à Editora Unesp, que eu amo tanto.
D.M.: Muito bom, professor. O senhor acompanha o Brasil há mais de cinco décadas, certo?
J.G.: Desde que eu tinha 22, 23 anos.
D.M.: Como o senhor enxerga esse momento das relações entre Brasil e Estados Unidos, especialmente diante das discussões sobre uma possível interferência do governo Trump nas eleições brasileiras, interferência que já estamos vendo tomar forma em diversos aspectos?
J.G.: Bom, já estamos vendo essa interferência do governo americano nas eleições brasileiras. Já faz tempo, e é muito perigoso.
Acho que este é um momento crucial, crítico, na relação entre os dois países, talvez desde a interferência nas eleições de 1962, no governo João Goulart, quando a CIA investiu 5 milhões de dólares, o que hoje seria mais ou menos 35 milhões de dólares, para influenciar as eleições para governadores, apoiando candidatos antigoulartistas.
Depois, como todo mundo sabe muito bem, houve o apoio ao golpe militar e aos 21 anos da ditadura militar. Então, estamos em um momento crucial, em que Trump já anunciou que, primeiro, tem candidato, que é Flávio Bolsonaro, e, segundo, quer ver a extrema direita vencendo as eleições aqui no Brasil.
Neste momento, estou no Brasil, em outubro. Então, é um grito de alerta para todo mundo que está preocupado com a democracia brasileira. Como sabemos, a família Bolsonaro tentou fazer um golpe de Estado em 2023 e claramente está tentando fazer uma articulação com uma pessoa na Casa Branca que pode fazer qualquer coisa para alcançar os seus fins.
E, neste momento, um dos fins dele é ver um governo de extrema direita no Brasil, como ele tem apoiado vários governos de extrema direita em outras partes da América Latina.
D.M.: Professor, em uma entrevista recente, o senhor afirmou que as eleições brasileiras são, neste momento, até mais democráticas do que as dos Estados Unidos. O que o senhor acha que o Brasil pode ensinar aos americanos em termos de defesa institucional e responsabilização dos ataques à democracia?
J.G.: A Constituição americana, escrita no século XVIII, tinha uma noção de controle eleitoral por estado. Então, é descentralizado, bem diferente do Brasil, que é concentrado, centralizado. Por causa de Getúlio Vargas, em certo momento, nos anos 1930, isso foi se desenvolvendo e, nos anos 1990, vieram as urnas eletrônicas, que criam uma situação de capacidade de saber os resultados poucas horas depois de encerrada a votação.
Nesse sentido, é muito eficiente e confiável. Eu fui convidado, em 2022, para estar no Brasil como observador das eleições. Passei dois dias com o TRE de São Paulo acompanhando o processo eleitoral, entendendo como funciona e qual é a segurança das urnas.
Nos Estados Unidos, essa descentralização criou, no século XIX, a possibilidade de corrupção local, como no Brasil do século XIX, durante o Império, quando os coronéis controlavam muitas urnas. Porém, essa situação de descentralização está sendo, nos Estados Unidos, totalmente modificada, na medida em que Trump está querendo interferir, com a força do governo federal, nas eleições locais.
Ele quer decretar que certas cidades ou estados estão conduzindo as eleições em favor dos democratas e está alegando fraude eleitoral, como alegou que ganhou as eleições de 2020 e que perdeu por fraude eleitoral. Ele está alegando agora que, supostamente, milhões de pessoas que não têm direito a votar vão votar nas eleições. Então, ele está querendo tomar uma série de medidas para interferir.
O que podemos aprender? Nos Estados Unidos, Donald Trump cometeu uma série de crimes enquanto era presidente ou candidato a presidente, e a Suprema Corte americana, controlada por uma votação conservadora, decretou que ele tem poder absoluto como presidente, que pode fazer qualquer coisa.
Isso criou uma situação em que, quando ele incentivou uma tentativa de golpe de Estado, em 2021, quando Biden foi eleito presidente, ele não foi condenado. Foi basicamente absolvido dessas acusações.
No Brasil, houve uma tentativa de golpe de Estado e o processo judiciário brasileiro funcionou. Jair Bolsonaro foi condenado por ter feito uma tentativa de golpe de Estado. Essa é a grande diferença entre os dois países.
É importante esclarecer uma coisa fundamental: quando houve essa tentativa de golpe de Estado, em 2022, no Brasil, o governo americano, naquele momento presidido por Joseph Biden, foi claro e importantíssimo na defesa da democracia brasileira e dos resultados eleitorais.
Os Estados Unidos reconheceram os resultados uma hora depois da proclamação do TSE. Antes, deixaram vários recados claros à casta militar, por meio do Departamento de Estado e do Departamento de Defesa, dizendo que o governo americano não aceitaria um golpe de Estado no Brasil. Isso provocou uma divisão dentro das Forças Armadas brasileiras, em que um setor resolveu não aderir à tentativa de golpe porque não tinha apoio americano.
Nesse sentido, é importante esclarecer que, no passado, forças tanto no Congresso quanto na Casa Branca estavam defendendo a democracia brasileira. Neste momento, é o contrário. Elas querem interferir.
Recentemente, tentaram mandar uma missão de pessoas do Departamento de Estado justamente para tentar interferir e alegar que o processo eleitoral brasileiro tem capacidade de ser fraudulento, criando ansiedade sobre os resultados e oferecendo uma justificativa, caso Lula ganhe por pequena margem, para não reconhecer os resultados eleitorais.
Então, essa é uma das várias ameaças que o Brasil enfrenta neste momento, como interferência norte-americana nos resultados eleitorais deste ano.
D.M.: Eu ia justamente perguntar sobre isso, sobre a possibilidade de o governo Trump não reconhecer os resultados de uma possível vitória do atual presidente Lula.
J.G.: Não somente os Estados Unidos. Trump pode levar com ele aliados que tem construído na América Latina. Milei, claramente. Milei já foi para a convenção do PL e fez acusações contra o presidente atual. É uma violação brutal e grosseira da lei eleitoral brasileira, no sentido de que é proibido estrangeiro subir no palanque e fazer campanha eleitoral para um candidato brasileiro.
Ele já violou essa lei brasileira, que foi escrita nos anos 1940 e à qual vários elementos foram adicionados em outros momentos da história do país.
Então, Trump pode chamar pessoas da Colômbia, do Peru, do Equador, de Honduras, presidentes da extrema direita que ele apoiou em suas candidaturas, em uma ofensiva para criar uma frente basicamente semifascista, fascista, na América Latina, contra a esquerda latino-americana, que neste momento representa o Brasil e o México.
É uma ameaça real não somente para o Brasil, mas para toda a América Latina. Se as eleições brasileiras são deslegitimadas, isso pode criar outros problemas no futuro, em outros países, como o México.
D.M.: Professor, surgiu aqui uma pergunta, e vou aproveitar a oportunidade para pedir a sua avaliação, se for possível, em relação às eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. São duas perguntas, na verdade: uma sobre esse prognóstico e outra sobre a declaração recente de Donald Trump de que pretende concorrer mais uma vez à presidência, sendo que isso é vedado pela lei americana. Como fica essa situação?
J.G.: Vou responder primeiro à segunda pergunta, porque acho muito interessante. As pessoas me perguntam isso muitas vezes.
Na Constituição original, não havia uma indicação de quantos mandatos um presidente poderia ter. Washington, o primeiro presidente do país, general, de uma família rica, tinha um sentimento democrático e republicano. Ele criou a tradição de um presidente servir dois mandatos e depois renunciar, mesmo sendo tão popular que poderia ter sido presidente por toda a vida. Ele entendeu que era necessário trocar as pessoas no Poder Executivo.
Durante todo o século XIX, manteve-se essa tradição. Um presidente foi eleito, perdeu e depois foi reeleito, mas era claro que se tratava de uma presidência de dois mandatos.
Durante a Grande Depressão, nos anos 1930, houve uma crise econômica brutal, mundial, mas especialmente nos Estados Unidos. Roosevelt foi eleito para atender às ansiedades econômicas e sociais da sociedade. Depois foi eleito para um segundo mandato, entrou na Segunda Guerra Mundial, foi reeleito e chegou a um quarto mandato, justamente para acompanhar o processo da guerra contra o fascismo na Europa e no Japão, nos anos 1940.
Ele faleceu e, no começo dos anos 1950, o Congresso fez uma emenda à Constituição dizendo que um presidente só poderia servir dois mandatos. E não há dúvida sobre o debate que houve em torno dessa questão: a intenção era limitar a apenas dois mandatos.
Então, essa é uma fantasia de Trump, em parte para mobilizar sua base para as eleições de novembro, quando todos os membros da Câmara serão reeleitos, porque têm mandatos de dois anos, e também um terço do Senado.
Pela tradição histórica dos últimos 40 ou 50 anos, o partido que está fora do poder ganha contra o presidente que está na Casa Branca nessas eleições de meio de mandato. Trump, sabendo que há uma possibilidade de perder o controle tanto da Câmara quanto do Senado, está com muito medo de sofrer um terceiro impeachment. Ele está apavorado com isso.
Ele fez uma série de manipulações para modificar distritos eleitorais e favorecer os republicanos em vários estados. Está ameaçando uma intervenção federal nas eleições em lugares onde há disputa entre democratas e republicanos. Também está ameaçando alegar fraude eleitoral.
Independentemente disso, com a situação da economia, que está muito ruim, e com nenhuma promessa dele cumprida nesses dois anos do segundo mandato, todas as pesquisas indicam que os democratas vão ganhar o controle da Câmara. É possível que ganhem também o controle do Senado. O Senado será mais difícil por vários fatores, e vamos saber nas próximas semanas quem são todos os candidatos democratas contra os republicanos para medir com mais precisão essas possibilidades.
Ganhar o controle do Senado será por um voto, então será muito apertado. Mas, se os democratas controlarem tanto a Câmara quanto o Senado, ou mesmo só a Câmara, haverá grande possibilidade de frear um pouco as loucuras do presidente Trump.
Nos últimos dois anos do mandato, ele fará vingança contra todos os seus inimigos, fará um autoperdão no final do mandato e causará muitos estragos, tanto na economia e na situação doméstica quanto internacionalmente. Serão dois anos horríveis, um pesadelo, mas, se houver uma vitória dos democratas, pelo menos ele será um pouco mais controlado e freado em suas tentativas de seguir as loucuras da presidência.
D.M.: Certo. Voltando ao Brasil, queria comentar dois projetos em que o senhor está envolvido e que têm relação com livros publicados pela Editora Unesp. Vou começar por Esquecer? Nunca mais!, livro que parte da história de Marcos Arruda, sequestrado e torturado durante a ditadura militar no Brasil, e que conta essa história narrada por sua mãe, Lina Penna Sattamini.
O senhor está transformando esse material em uma ópera. Poderia comentar um pouco sobre esse projeto? Por que adaptar esse livro a esse formato?
J.G.: É muito interessante. Marcos Arruda foi o primeiro brasileiro que conheci, e é por causa dele que estou aqui conversando contigo. Ele era exilado nos Estados Unidos em 1973, quando o conheci, no começo do ano.
Ele era uma pessoa muito carismática, mas não se autopromovia. Era uma pessoa muito humilde. Essa personalidade era ainda mais atraente, porque ele havia feito uma série de coisas que eu, como jovem romântico, pensando na revolução na América Latina, ficava fascinado ao ouvir.
Fiquei amigo da família. Minha família no Brasil. O filho dele é meu afilhado, a irmã dele é minha comadre. Tenho dois afilhados nessa parte da família. Ao longo dos anos, convivi com Lina, que foi uma espécie de meia-mãe brasileira para mim.
Quando ela resolveu fazer esse livro, cuja primeira edição foi publicada em 2000, era basicamente um desabafo contra uma declaração de Fernando Henrique Cardoso dizendo: “vamos virar a página, esquecer a história da ditadura, vamos passar adiante”. Ela ficou furiosa, porque seu filho quase morreu. Marcos era o primeiro filho. Ela teve cinco filhos, amava todos, mas Marcos era o primeiro, o predileto.
Então, ela fez um pequeno livro baseado nas cartas que trocava com a família. Ela estava morando nos Estados Unidos, trabalhando como freelancer no Departamento de Estado. Em certo momento, a família pediu que ela fosse ao Brasil, mas também que permanecesse um tempo lá para ganhar dinheiro e ajudar a pagar os gastos para descobrir onde Marcos estava, pagar advogados e transporte entre Rio e São Paulo, onde Marcos estava preso.
Ela e a família se mobilizaram totalmente pela libertação dele. Dona Lina trocava cartas com a família, coletou essas cartas e construiu a narrativa do livro original.
Eu peguei o livro original, pedi a Marcos que escrevesse um epílogo sobre a experiência dele na prisão, para contrapor com a experiência da família fora, sem saber a realidade do que estava acontecendo dentro da prisão. Escrevi uma introdução, e o livro foi publicado em inglês por uma editora acadêmica muito boa. Depois, a Editora Unesp teve a honra de publicar o livro em português.
Eu sempre amei essa história e sempre quis fazer alguma coisa com ela. Pensei em novela, mas depois percebi: qual é a mídia em que não há um debate sobre a ditadura militar? Temos peças, musicais, filmes, documentários, muitos livros, mas não temos ópera.
Quando propus essa ideia a Marcos, ele veio de uma tradição do movimento estudantil dos anos 1960 e disse: “ópera? Que burguesa, que horror! Por que ópera?”. Eu expliquei a ele que a ópera é uma mídia maior do que a realidade, onde você pode expressar emoções muito profundas de uma maneira expansiva.
A história dele é isso. É a história de um homem de classe média do Rio de Janeiro, que fez geologia, tinha feito intercâmbio nos Estados Unidos, falava fluentemente grego e latim, porque o pai era professor de latim e grego no Colégio Pedro II. Ele resolve entrar em uma organização contra a ditadura, a Ação Popular, e a Ação Popular o convence a entrar em uma fábrica, para trabalhar com os trabalhadores.
Durante dois anos, entre 1968 e 1970, ele trabalha como operário em uma fábrica em São Paulo, tentando conscientizar os trabalhadores para se organizar contra a ditadura, o que de fato aconteceu em 1978, quando Lula encabeçou um movimento sindical muito forte contra a política econômica e sindical da ditadura.
Marcos entrou na fábrica, trabalhava, tentava conscientizar os trabalhadores, e à noite dava aula de alfabetização em uma igreja. De repente, uma pessoa de outra organização, fugindo da polícia, pede à organização dele ajuda para ser acolhida. Marcos, sem saber o perigo, aceita tentar ajudar. Eles marcam um encontro, mas ela já havia sido presa e falado sobre o encontro. Marcos é preso e quase morre na tortura.
A família se mobiliza. É uma família de classe média, com conexões com a sociedade, porque os tetravôs eram viscondes no Segundo Reinado. Mesmo assim, foi quase impossível, primeiro, saber o paradeiro de Marcos e, depois, tirá-lo da prisão.
Quando o tiraram da prisão, ficaram sabendo que ele seria preso de novo e tiveram muito medo. A família disse que, se ele ficasse no Brasil, morreria. Então, convenceram-no a sair do país. Como a mãe estava trabalhando nos Estados Unidos, ele foi para Washington, fundou um comitê contra a repressão no Brasil, e eu o conheci nessa época, pouco depois da chegada dele.
Ele me incluiu no movimento dele, e comecei a fazer um trabalho denunciando a ditadura militar desde os 22, 23 anos, mesmo sem falar português naquela época e sabendo muito pouco sobre o Brasil.
A ópera é uma maneira de reiniciar esse debate, de fazê-lo de uma forma diferente. Pelo libreto e pela música que está sendo composta, acho que será uma coisa muito bonita. Meu sonho é levar essa ópera à Scala, em Milão. Desde que Carlos Gomes levou O Guarani, no século XIX, nenhuma ópera brasileira que eu saiba conseguiu essa influência internacional.
Acho que essa é uma história importantíssima para compartilhar com o mundo, como o grande filme de Walter Salles, Ainda estou aqui, conseguiu ganhar o Oscar de melhor filme internacional e tornar conhecida pelo mundo a história horrível do desaparecimento de Rubens Paiva.
Pretendo, em outra área, tentar furar essa bolha que protege o Sul Global contra o Norte Global e levar essa ópera para o exterior. Para isso, faremos um primeiro ensaio geral de parte da ópera, o primeiro ato, em São Paulo, em setembro, com uma pequena orquestra de dez músicos e quatro cantores líricos, para mostrar a um público reduzido os resultados dessa produção.
A ópera completa deve ficar pronta no ano que vem, para tentarmos conseguir um palco em São Paulo, no Rio, em Belo Horizonte, eventualmente na Europa e nos Estados Unidos. Estou muito agradecido pelo apoio, pela força e pela confiança que a Editora Unesp tem nesse projeto e em todos os meus projetos de livros que publicou. É uma editora magnífica.
D.M.: Com certeza vamos acompanhar. E, como se esse projeto não fosse suficientemente grandioso para absorver boa parte do seu tempo, o senhor também está transformando Além do Carnaval, que, se não me engano, foi o primeiro título que publicou com a Editora Unesp, em um documentário. O livro já teve três edições, é um sucesso de vendas e sempre é reimpresso.
O que motivou o senhor a pegar esse material e transformá-lo em documentário?
J.G.: Primeiro, preciso dizer uma coisa muito importante. Além do Carnaval foi a minha tese de doutorado. Eu a escrevi rápido, publiquei em inglês e consegui publicar com a Editora Unesp. Fiz questão de publicar com a Unesp porque, naquele momento, era a maior e mais importante editora acadêmica do país, e ainda é.
Eu queria garantir que o mundo acadêmico reconhecesse a importância desse tipo de pesquisa. Era fundamental que tivesse esse selo, esse respaldo de uma editora importante. Fiquei muito honrado de ter sido aceito para publicação pela Editora Unesp. Também foi um trabalho muito cuidadoso em termos de metodologia histórica.
Virou realmente a primeira obra em história, na disciplina de história no país, sobre esse tema. Havia outros trabalhos em letras e antropologia, e um jornalista também havia feito outro livro, mas este foi o primeiro livro desse porte.
Ao longo dos anos, tenho observado, porque participo de muitas bancas de mestrado e doutorado, como ele é importante para jovens pesquisadores que estão iniciando sua carreira e querem ter uma obra de referência para o seu trabalho, sobre qualquer assunto derivado do livro ou algo original e diferente.
O livro é muito importante. E, infelizmente, ele é um tijolo, é grande, porque resolvemos atualizar a terceira edição com um novo capítulo para levar a narrativa até o final do século XX e um pouco ao século XXI. Como cada vez menos pessoas leem com frequência, senti a necessidade de ter outro veículo para transmitir essa informação.
Quando lancei o livro, em 2000, tentei fazer um documentário. Contratei um amigo para me ajudar, fizemos 12, 15 horas de filmagens com pessoas, algumas das quais já faleceram. Então foi muito bom termos feito esse registro. Fizemos um minidocumentário de 24 minutos, que passou no festival É Tudo Verdade, em São Paulo. Mas eu estava muito concentrado na minha carreira acadêmica, nos outros livros que publiquei e em outras atividades, então deixei o projeto mais ou menos à margem.
Quando me aposentei da Brown University, depois de 20 anos lá e 30 anos na carreira de professor, passei a ter liberdade e tempo para embarcar em outros projetos ou, neste caso, reiniciar um projeto que comecei 26 anos atrás.
Chamei um cineasta muito conhecido por filmes LGBTQIA+, Lufe Steffen, para me ajudar como diretor, e trabalhamos juntos no roteiro do documentário. Resolvemos ampliar muito o público e também as pessoas entrevistadas, porque meu livro original focava Rio, São Paulo e gays, homens. No documentário, ampliamos para a diversidade do movimento LGBTQIA+.
Fizemos 24 entrevistas e amanhã farei a última, com Ney Matogrosso. Estou muito animado e muito feliz por conseguir essa entrevista com Ney Matogrosso, que é fundamental para a nossa história.
As pessoas que filmamos vão de Erika Hilton e Jean Wyllys, deputados históricos e importantíssimos, a Mônica Benício, companheira de Marielle Franco e também vereadora, além de outras figuras públicas e pessoas-chave do movimento LGBTQIA+, como Symmy Larrat, secretária nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, e Renan Quinalha, uma grande figura do movimento.
O documentário mostra a amplitude das pessoas que compõem nosso movimento, essa “sopa de letrinhas”, e sua situação atual ligada ao argumento de Além do Carnaval. O argumento do livro era basicamente simples: durante o Carnaval, ao longo do século XIX e do século XX, havia um espaço privilegiado para as pessoas brincarem com sua sexualidade e com suas noções de gênero; mas, durante o resto do ano, havia repressão, discriminação, marginalização e até morte.
Estamos tentando mostrar como o movimento conquistou muitos espaços ao longo dos últimos 40, quase 50 anos, porém dentro de um pano de fundo de repressão, discriminação e marginalização que, infelizmente, ainda existe no país.
Essa contradição é o eixo principal do filme. Pretendemos fazer a pós-produção no ano que vem e lançar em 2028. Como todos os meus projetos, há sempre o desafio do financiamento, porque, infelizmente, ainda é muito difícil fazer filmes no Brasil, fazer óperas no Brasil, fazer qualquer coisa no Brasil pelos desafios financeiros. Mas estamos lutando para conseguir os recursos para finalizar o documentário e lançá-lo em vários festivais a partir de 2027 e 2028.
D.M.: Maravilha. Professor, como última pergunta: depois de tantos anos não só estudando o Brasil, mas vivendo o Brasil, o que ainda o surpreende aqui, para o bem e para o mal?
J.G.: Vou responder de uma maneira um pouco longa, porque acho que há outro elemento na minha vida que é fundamental, acadêmico, mas também além do acadêmico.
Desde que conheci brasileiros e a realidade brasileira, comecei a aprender português e fui muito incentivado por uma politização, por uma preocupação política com o país. No primeiro momento, contra a repressão e a tortura no Brasil. Depois, pela democracia, pelo processo democrático.
Morei no Brasil durante seis anos, entre o fim dos anos 1970 e o começo dos anos 1980, quando participei da fundação do movimento LGBTQIA+. Na USP, participei do movimento contra a ditadura militar. Essa preocupação com a política brasileira nunca ficou escondida ou largada.
Quando houve o golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff, eu, com outras brasileiras, brasileiros e brasilianistas nos Estados Unidos, organizei um grande movimento que, em 2018, foi concretizado no US Network for Democracy in Brazil, a Rede dos Estados Unidos pela Democracia no Brasil, e também na fundação de um escritório em Washington, o Washington Brazil Office, que eu e outras pessoas fundamos em 2020.
Esse trabalho foi fundamental para articular apoio no Congresso à democracia no Brasil e ter uma voz unificada dizendo que não aceitamos golpes de Estado no Brasil, nem em lugar nenhum, bem diferente da política atual. Conseguimos apoio muito grande de senadores e deputados defendendo a democracia brasileira no processo eleitoral.
Essa parte da minha vida é muito importante. Eu não me meto nas eleições brasileiras. Tenho meus candidatos favoritos, mas nosso trabalho é não partidário. Ele basicamente se concentra muito na mobilização de apoio aos movimentos sociais brasileiros em suas articulações internacionais. Acho isso importante e tenho muito orgulho de ter participado desse processo democrático, que infelizmente precisa ser defendido hoje em dia.
O que ainda me surpreende no Brasil, do lado bom e do lado ruim? Primeiro, eu amo o país e a cultura, apesar de todos os defeitos que conheço, porque conheço muito bem o Brasil. Brinco com motoristas de Uber, com quem converso, que sei mais sobre a história do Brasil do que 95% dos brasileiros, porque muitos não prestaram atenção no colégio sobre Dom Pedro I, Dom Pedro II etc.
O que me surpreende é a capacidade dos movimentos sociais e populares de se manterem lutando neste país. É uma coisa muito bonita ver como a sociedade civil está muito organizada, disposta a lutar e conquistar plenos direitos em um país que privilegia um setor social desde a época da escravidão e desvalorizava os outros.
O processo de ação afirmativa nas universidades, por exemplo, é fabuloso. Transformou as universidades brasileiras e criou uma possibilidade de ascensão social que jamais havia ocorrido no país, a partir dessas políticas públicas realizadas no começo do século XXI. Isso me deixa muito alegre.
Não me surpreende, mas fico muito triste com o fato de o país estar muito polarizado e, infelizmente, setores conservadores, tanto da Igreja Católica quanto protestante, ainda se aliarem a setores da extrema direita, para mim abandonando qualquer noção do que é cristianismo, em favor de uma política de ódio, de marginalização, de falta de todos os ensinamentos que aprendi quando fui criado em uma família cristã.
Isso ainda me surpreende, mas não me surpreende tanto porque é a mesma situação na minha terra: a consolidação da extrema direita do Partido Republicano que resultou na eleição de Trump pela segunda vez à presidência.
Para finalizar, quero dizer o seguinte: meu namoro com o Brasil já tem 53 anos. É um namoro de muitos anos. Nunca passei por uma separação com o Brasil. Às vezes fiquei longe porque era um namoro em que eu tinha que abandonar meu parceiro e viajar, ficar nos Estados Unidos. Mas, com a liberdade que tenho na aposentadoria, poderei fazer mais projetos.
Tenho mais quatro projetos sobre os quais nem falamos hoje. Estou terminando um livro chamado Geração 77, que a Editora Unesp gentilmente ofereceu a possibilidade de publicar, caso eu passe pelo processo de seleção e avaliação. É um livro sobre a geração dos anos 1970 que se mobilizou nas ruas. 1977 foi justamente o ano em que o movimento estudantil reiniciou o processo contra a ditadura militar.
Estou fazendo esse livro agora, que trata de sete pessoas, sete anos e sete movimentos contra a ditadura militar. Depois, tenho outros projetos adiante e, na medida em que a Unesp me acolhe, espero seguir em grande parceria com essa editora nos próximos 15, 20 anos.
D.M.: Com certeza estaremos aqui ansiosos por todos esses projetos, professor. Mais uma vez, muito obrigado pela sua disponibilidade e bom trabalho por aí.
J.G.: Muito obrigado, Diego. Foi um prazer falar contigo hoje.
D.M.: Igualmente, professor. Um abraço.
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