Lançamento reabre leituras de 'Pau Brasil' e da aventura brasileira de Blaise Cendrars

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terça-feira, 1 de setembro de 2026

Em conversa na Biblioteca Mário de Andrade, Gênese Andrade (à esq.) e Carlos Augusto Calil discutiram o modernismo para além das celebrações, com atenção aos documentos, às disputas críticas e às tensões políticas sob mediação de Carolina Casarin (ao centro)
(Foto: Diego Moura/Editora Unesp)

A Biblioteca Mário de Andrade recebeu, na noite de 1º de setembro, o lançamento conjunto de Pau Brasil 100 anos: o manifesto e o livro no calor da hora, organizado por Gênese Andrade e publicado pela Editora Unesp, e A aventura brasileira de Blaise Cendrars, de Alexandre Eulalio e Carlos Augusto Calil, publicada pela Edusp. Mediado por Carolina Casarin, o encontro reuniu os pesquisadores para discutir os modernismos brasileiros a partir de documentos, cartas, capas, viagens, recepção crítica e novas possibilidades de leitura.

A conversa partiu de uma coincidência simbólica: a data marcava os aniversários de Tarsila do Amaral e Blaise Cendrars, dois nomes decisivos para compreender as articulações entre literatura, artes visuais e imaginação nacional na década de 1920. Também estavam no horizonte os centenários do manifesto Pau Brasil, do livro publicado por Oswald de Andrade em 1925, das viagens de Cendrars ao Brasil e da exposição individual de Tarsila na Galeria Percier, realizada em Paris em 1926. Mais do que celebrar efemérides, o evento propôs uma revisão crítica de obras e relações que continuam a provocar perguntas sobre cultura brasileira.

Ao apresentar Pau Brasil 100 anos, Gênese Andrade definiu o volume como um dossiê construído para “cercar o livro de todos os lados”. A edição reúne reprodução facsimilar da obra de 1925, documentos que antecederam sua publicação, manuscritos, originais de ilustrações, textos que circularam previamente em jornais e revistas, dedicatórias e fortuna crítica do manifesto e do livro entre 1924 e 1927. “O livro reúne toda essa documentação e é um convite para revisitar o Pau Brasil, na medida em que, cem anos depois, ainda temos muito material pouco conhecido”, afirmou.

Para a pesquisadora, esse retorno documental ajuda a enfrentar leituras apressadas de Oswald de Andrade. “O Oswald é muito lido já há muito tempo, mas nem sempre bem lido. Acho que falta uma leitura mais atenta”, disse. Ao comentar a seção “História do Brasil”, em que o escritor transforma trechos de cronistas coloniais em poemas, Gênese ressaltou que o procedimento não deve ser lido como improviso ou simples irreverência. “Ele não está enaltecendo a História do Brasil, ele não está valorizando a chegada, a invasão, a descoberta do Brasil pelos europeus. Ele está criticando, está pondo em xeque.”

Essa dimensão crítica, segundo Gênese, aparece desde o título e a capa de Pau Brasil, ao evocar o primeiro produto de exportação do país e as violências ligadas à exploração colonial. “Tudo isso que nós vemos falando, de representatividade, de genocídio, de mestiçagem, está posto aí”, afirmou. Para ela, os debates atuais sobre eurocentrismo, povos indígenas, colonização e identidade nacional já estavam, de outro modo e em outro vocabulário, presentes nas discussões abertas pelo livro de Oswald e por sua recepção.

Carlos Augusto Calil reforçou esse deslocamento ao defender que Pau Brasil não deve ser compreendido apenas como manifesto literário. “O Pau Brasil foi entendido como um manifesto literário, mas é um manifesto político. E é o primeiro manifesto político dos modernistas”, afirmou. Para ele, o livro organizado por Gênese recupera justamente o “calor da hora”: as disputas, adesões, recusas e clivagens ideológicas que cercaram a publicação e ajudam a compreender os caminhos posteriores do modernismo brasileiro.

Ao falar de A aventura brasileira de Blaise Cendrars, Calil destacou a importância da nova edição como obra de referência sobre o período. O volume incorpora materiais surgidos nas últimas décadas, entre eles registros da passagem de Cendrars pelo Rio de Janeiro, uma entrevista de 1926 sobre o Carnaval brasileiro e documentos que reforçam seu interesse pela cultura negra no Brasil. Segundo Calil, Cendrars foi “um observador muito agudo da questão do negro no Brasil” e também da indiferença diante dessa presença, “como se não existisse o problema” de sua invisibilidade.

A presença de Cendrars junto aos modernistas foi apresentada como decisiva para alterar o olhar de Oswald, Tarsila e seus interlocutores sobre o próprio país. Calil lembrou que, em Paris, o escritor circulava entre grupos sociais e artísticos distintos, aproximando brasileiros que frequentavam ambientes diferentes. “Ele estava disponível para os dois lados. Então, de repente, foi uma espécie até de elo deles mesmos”, afirmou. Mais tarde, nas viagens ao Rio de Janeiro e a Minas Gerais, Cendrars ajudaria a chamar a atenção dos modernistas para dimensões do Brasil que ainda exigiam reconhecimento, preservação e interpretação.

Gênese também ressaltou a dívida de Pau Brasil 100 anos com A aventura brasileira de Blaise Cendrars. “Quando ela saiu, foi uma revolução na minha vida, porque é uma documentação incrível sobre o modernismo”, disse, ao lembrar que o livro permite acompanhar o passo a passo das viagens de Cendrars com Oswald e Tarsila ao Carnaval e às cidades históricas de Minas. “Esse livro, Pau Brasil 100 anos, deve muito a A aventura brasileira, e é por isso que, para mim, é uma alegria que estejamos aqui fazendo esse lançamento ao mesmo tempo.”

Ao final, a conversa mostrou que revisitar o modernismo não significa apenas retornar a nomes consagrados ou comemorar datas redondas. Entre documentos inéditos, leituras de capas, disputas críticas, viagens, cartas e relações pessoais, Gênese Andrade e Carlos Augusto Calil recolocaram Pau Brasil e Blaise Cendrars no centro de uma discussão sobre arte, política, memória e formação cultural brasileira. Cem anos depois, os modernismos seguem menos como capítulo encerrado do que como campo vivo de investigação.

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