Em entrevista ao canal da Editora Unesp, autora de Com brasileiro, não há quem possa! discute futebol, identidade nacional, bets e as transformações na relação do país com a seleção
Em 2004, quando Com brasileiro, não há quem possa! Futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues foi publicado pela Editora Unesp, o Brasil ainda vivia o embalo do pentacampeonato. Mais de duas décadas depois, entre eliminações precoces, jogadores transformados em marcas, casas de apostas e disputas políticas cada vez mais explícitas, a relação do brasileiro com a seleção parece ter mudado.
Para refletir sobre esse cenário, o canal da Editora Unesp no YouTube entrevistou a professora e pesquisadora Fatima Antunes, autora da obra. Na conversa, ela analisa como o futebol ajudou a construir uma determinada ideia de Brasil e o que ainda resta dessa imagem no presente.
Ao comentar a eliminação do Brasil para a Noruega nas oitavas de final da Copa de 2026, Fatima afirma que a seleção apareceu “sem uma identidade”, distante daquilo que, ao longo de décadas, caracterizou o futebol brasileiro. Para ela, o desempenho recente revela um time “apático” e “amorfo”, sem uma cara muito definida.
A pesquisadora também chama atenção para o afastamento entre torcedores e jogadores. Muitos atletas atuam fora do país, em clubes europeus, o que altera a relação cotidiana do público brasileiro com seus principais nomes. A isso se somam trocas de treinadores, problemas políticos na CBF e uma dificuldade mais ampla de pensar o que é hoje a seleção brasileira e o que ela representa.
Na entrevista, Fatima retoma um dos temas centrais de seu livro: o modo como José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues ajudaram a construir uma narrativa sobre o futebol brasileiro entre os anos 1950 e 1970. Naquele período, marcado pela conquista do tricampeonato mundial, o Brasil passou a ser identificado internacionalmente pelo chamado futebol-arte, associado à beleza do jogo e a uma certa ideia de identidade nacional.
A professora observa, no entanto, que o futebol mudou profundamente nas últimas décadas. A Europa se consolidou como centro mundial da modalidade, atraindo jogadores de diferentes países e transformando a formação, a circulação e o estilo das seleções. Para ela, se o Brasil quiser voltar a vencer, precisará se adaptar a esse novo contexto, mas sem perder sua essência.
Assista à entrevista completa abaixo e confira a análise de Fatima Antunes sobre futebol, identidade nacional e os caminhos da seleção brasileira (em seguida ao vídeo, você pode também ler à transcrição da conversa).
https://www.youtube.com/watch?v=7WEHCNbwDqQ
Transcrição da entrevista:
Diego Moura: Em 2004, o Brasil vivia ainda o embalo do pentacampeonato. O futebol parecia ocupar um lugar quase incontestável na identidade nacional. Mais de duas décadas depois, entre eliminações precoces, jogadores transformados em marcas, casas de apostas e disputas políticas cada vez mais explícitas, a relação do brasileiro com a seleção parece ter mudado.
Para entender o que permanece e o que se transformou nessa história, conversamos com a professora Fatima Antunes, autora, pela Editora Unesp, do livro Com brasileiro, não há quem possa! Futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues.
Professora e pesquisadora, ela analisa como o futebol ajudou a construir uma determinada ideia de Brasil e o que essa ideia ainda significa hoje.
Professora, muito obrigado pelo aceite em conversar aqui com o canal da Editora Unesp no YouTube.
Fatima Antunes: Eu que agradeço, Diego, pelo convite. É um prazer.
D.M.: Maravilha. Bom, professora, acho que a pergunta inicial não pode fugir disso: a senhora assistiu à derrota do Brasil para a Noruega no domingo? Qual foi a sua primeira leitura da partida e dessa eliminação ainda nas oitavas de final da Copa de 2026?
F.A.: Sim, claro. Em relação a essa partida contra a Noruega, principalmente, o Brasil apareceu como uma seleção sem uma identidade. Para retomar um pouco o tema da nossa discussão, foi um Brasil sem cara, que não lembrava muito tudo aquilo que caracterizou a seleção brasileira ao longo de décadas e das conquistas de vários campeonatos.
Apareceu um Brasil apático, amorfo, sem uma cara muito definida.
D.M.: Ainda nesse sentido, não só em relação a esse último jogo, mas também ao acúmulo dos últimos jogos: o que mais chamou a sua atenção no desempenho da seleção brasileira? Foram as escolhas técnicas, a postura dos jogadores ou a dificuldade de construir um futebol que o torcedor reconheça como brasileiro? Essa dificuldade existe?
F.A.: Eu acho que são todos esses fatores ao mesmo tempo. Existe um afastamento da torcida em relação aos jogadores. Muitos atuam na Europa, então você não tem um acompanhamento, uma vivência daquele dia a dia do jogador, como acontece com os atletas que atuam aqui no Brasil.
Ao mesmo tempo, hoje há muito mais transmissões de jogos dos clubes europeus e dos campeonatos europeus. Então, eles são conhecidos e, ao mesmo tempo, não são. Há um distanciamento.
Também tivemos, nos últimos tempos, uma série de trocas de treinadores e problemas políticos na CBF. Parece haver uma falta de organização generalizada, uma falta de pensamento sobre o que é a seleção brasileira, o que é o futebol brasileiro e o que esse futebol representa.
Às vezes, quando analisamos as últimas Copas e os resultados obtidos pela seleção, aparece muito a comparação com o futebol europeu: como eles se organizam, o que nós devemos fazer. Talvez o fundamental fosse olhar para nós mesmos: entender o que é o futebol no Brasil hoje, como ele se organiza, os problemas que os clubes enfrentam, a questão da revelação de jogadores, que tipo de jogador estamos revelando, como acontece a saída, muitas vezes precoce, desses atletas para a Europa ou para outros times estrangeiros.
Acho que falta esse olhar para dentro. O que somos nós? Como foi a trajetória das cinco Copas que conquistamos? Como ela deveria ser retomada?
Retomando um pouco a discussão que faço no livro, há um momento, entre os anos 1950 e 1970, em que esses cronistas estão refletindo, tentando entender o que é o brasileiro e o Brasil a partir do futebol e do desempenho da seleção brasileira.
Um tema recorrente nessas discussões é justamente a pergunta: quem somos? Queremos ser como os europeus? Queremos ser como eles ou não? O que temos de valor? Quais são os nossos pontos fortes e os nossos pontos fracos?
Dessa análise, dessa busca, sairia um futebol vencedor. É claro que também não dá para esperar que o Brasil ganhe todas as Copas, porque o futebol mudou completamente. Se pensarmos na época do tricampeonato, em 1970, e compararmos com hoje, parece outro esporte. Mesmo em relação a 2002, já há uma mudança muito grande.
Se antes alguns países se destacavam muito, hoje não é bem assim. Em geral, quem trabalhou melhor entre as Copas, quem fez melhor a lição de casa, chega ao momento da Copa e faz uma apresentação melhor. Mas estamos vendo que todos estudaram. As seleções chegam preparadas. Todo mundo domina essa linguagem.
É como se, ao longo do tempo, apenas alguns países dominassem certa linguagem do futebol. Hoje ela está muito mais disseminada.
Voltando ao começo, acho que falta, talvez inspirados nesses cronistas do passado, parar e olhar para dentro. Vamos recomeçar. Pode não dar certo da primeira vez, mas pode dar certo depois. O que falta é uma cara, uma identidade.
D.M.: Pegando esse gancho sobre a busca por olhar para fora, em vez de olhar para dentro, e sobre a Europa como modelo, hoje temos um técnico vindo justamente desse modelo. Como um treinador formado em outra cultura futebolística pode se adaptar às expectativas que cercam a seleção brasileira? E como ele pode fazer parte desse movimento de olhar para dentro?
F.A.: Na verdade, ele não faz. Esse agora vai ser o grande desafio, porque ele chegou em um momento já muito em cima da hora. Teve pouco tempo para trabalhar, para imprimir uma visão de jogo. Agora ele terá mais tempo.
Acredito que, nesse tempo, ele possa ter mais contato com o país. Ele já está tendo a experiência de saber o que é o Brasil dentro de uma Copa, o que a seleção brasileira representa para os brasileiros em uma Copa. Então, é possível que ele faça esse movimento de olhar um pouco para trás e conhecer melhor o Brasil de dentro.
Ele também pode tentar apenas colocar a visão dele, com base na trajetória dele. E é por isso que foi contratado. Mas acredito que ele possa fazer esse movimento de conhecer melhor o Brasil. Se fizer isso, pode ter mais sucesso.
Mas é uma incógnita. Vamos ver.
D.M.: A preparação para a próxima etapa talvez já tenha começado. Aproveitando também o gancho da publicação do seu livro: ele foi publicado em 2004, em um momento em que o Brasil vinha da campanha vitoriosa de 2002, do pentacampeonato. A senhora também já comentou que o livro foi elaborado ao longo dos anos 1990, um período muito frutífero para o futebol brasileiro. Mas nele a senhora aborda um período anterior, ligado aos campeonatos bem-sucedidos que precederam as campanhas do tetra e do penta.
Que diferenças a senhora percebe entre aquele momento e o Brasil de hoje, nessa busca, que já virou quase eterna, pelo hexa?
F.A.: O período que eu estudo, dos anos 1950 até o início dos anos 1970, coincide com o momento em que o Brasil conquista o tricampeonato mundial. É também o momento em que o mundo conhece o futebol-arte. O Brasil passa a se caracterizar por isso, pela beleza do futebol. Não é só resultado: é o jogo bonito. Isso marca e define o que é o Brasil para o mundo e o que é o futebol brasileiro para o mundo.
Depois, há um período de 24 anos sem a conquista de um título. E essa questão do futebol-arte está sempre em discussão, porque o Brasil começa a perder certas características.
Em 1994, o tetra vem com um futebol que não era identificado com essa ideia do futebol-arte. Foi um futebol mais de resultado, mas a conquista foi importante.
Essa conquista do Brasil no início dos anos 1990 coincide também com um período em que começam a aparecer estudos acadêmicos sobre futebol. É um período bastante rico em termos de reflexão sobre a relação entre futebol e sociedade brasileira.
Há uma série de publicações e iniciativas. Por exemplo, o Ruy Castro faz todo um levantamento das crônicas de Nelson Rodrigues, que tinham sido publicadas em revistas. Então, também aparece uma literatura sobre isso. É um período muito efervescente.
O Brasil começa a pensar e refletir sobre o seu futebol. Esse período também coincide com a abertura política e com a redemocratização. Começamos a refletir sobre questões culturais. Até então, nos estudos acadêmicos, havia uma preocupação muito forte com questões políticas e com o mundo do trabalho. As questões da cultura passam a aparecer com mais força, estimuladas também por esse contexto.
Ao longo dos anos 1990, eu trabalho na elaboração desse livro, e a publicação acaba coincidindo com o pentacampeonato. É outro período bastante rico. A seleção de 2002 foi diferente, agradou mais ao brasileiro. Então, esse início dos anos 2000 também é muito fértil, com o surgimento de muitas publicações sobre futebol, resultado desses estudos.
Esse trabalho, em especial, teve uma repercussão muito boa na época, provavelmente também associada à conquista do pentacampeonato. Toda essa discussão sobre o futebol brasileiro voltou à tona. E a discussão do futebol-arte estava presente naquele momento, porque os jogadores que integraram a seleção brasileira já atuavam fora do Brasil. A discussão sobre o jogo bonito, sobre quem somos, volta a aparecer.
Mas, de 2002 até hoje, muita coisa aconteceu no mundo. Nesse período, a Europa se consolida como o grande centro mundial do futebol, atraindo jogadores do mundo inteiro. Também houve mudanças nas políticas dos clubes. Durante muito tempo existiam restrições ao número de jogadores estrangeiros, e isso foi mudando. Há também o movimento de descendentes de europeus que vão se naturalizando.
Outro ponto muito marcante é a imigração e a acolhida de imigrantes por países europeus, o que dá outras feições ao futebol. O caso da França é muito marcante: jogadores nascidos na França, mas filhos de imigrantes de ex-colônias francesas, passam a compor a seleção. Isso vai mudando o futebol desses países.
Em 2010, a Espanha também se inspira um pouco no próprio futebol brasileiro. Há todo esse movimento, e estamos vendo isso agora nesta Copa. Mesmo países com pouca expressão no futebol até então chegam com equipes mais sólidas do que teriam trazido há alguns anos. Em algumas seleções, os jogadores nasceram em outros países e aceitam jogar pelo país de seus pais, ou tiveram toda a sua formação em escolinhas de grandes clubes europeus.
Isso tudo está muito disseminado, muito misturado, e transformou o futebol no mundo. Houve quem chamasse esta Copa de “Copa das diásporas”, e acho essa expressão muito interessante. O futebol mudou muito. Parece outro esporte.
Quando assistimos àqueles filmes da Copa de 1970, parece outro esporte. Os jogadores parecem praticamente andar em campo. Era outra lógica. Hoje há um preparo físico completamente diferente, o que interfere nas táticas. As regras também foram se aprimorando, há a questão da tecnologia. Tudo isso interfere.
Diante desse contexto, se o Brasil quiser vencer novamente, precisa se adaptar. Mas talvez precise se adaptar sem perder sua essência, ou reencontrando sua essência. Não é fácil, mas fica como lição de casa para a próxima Copa.
D.M.: Retomando um pouco o seu livro, José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues foram fundamentais na criação de uma narrativa heroica do futebol brasileiro. Hoje, quem produz essa narrativa? Jornalistas, marcas, influenciadores, jogadores, CBF ou os próprios torcedores nas redes sociais?
F.A.: Acho que um pouco de tudo. A crônica já não é mais a mesma. Temos excelentes cronistas que fazem isso, mas essa crônica hoje está diluída em vários discursos presentes na sociedade, de diferentes formas.
Há as redes sociais, as marcas, que trabalham muito com imagem. Acho que isso está bastante diluído. A crônica hoje talvez não tenha o mesmo papel que teve décadas atrás, naquele período mais heroico ou mais glorioso do Brasil.
Hoje há uma multiplicidade de discursos, e isso fica um pouco perdido ou dissolvido. Talvez por isso exista uma dificuldade de entender o que é o futebol brasileiro, como ele deveria ser, como poderia ser ou o que se espera dele.
D.M.: A senhora mencionou a tecnologia como um fator que trouxe grandes mudanças para o futebol. Eu queria acrescentar outro fator que não é exatamente tecnológico, mas que também está impactando muito o futebol e a sociedade como um todo: as casas de apostas.
Quando elas passam a ocupar uniformes, transmissões, nomes de campeonatos, como fica a identidade do torcedor? Elas acabam se infiltrando e se apropriando praticamente de todos os espaços. Hoje, quando vemos uma transmissão, não só em canais como a CazéTV, mas também em veículos tradicionais, com personagens tradicionais da transmissão esportiva, como o Galvão Bueno, que virou garoto-propaganda de casa de aposta, como a senhora vê esse movimento?
F.A.: Acho que isso só contribui para afastar o torcedor. Afasta.
Se tempos atrás ainda se conseguia alguma unanimidade, um movimento mais unânime das pessoas nos dias de jogos, hoje isso já não existe da mesma forma. Há uma crítica maior, uma crítica mais elaborada em relação às bets e ao patrocínio dos próprios jogadores.
Aparece a discussão: será que se convoca determinado jogador porque ele tem mais patrocinadores? Há pressão de patrocinadores? As pessoas estão mais atentas a isso, discutindo mais, e isso contribui para afastar muita gente.
Neste ano mesmo, comparando com Copas passadas, a gente já não vê tanto aquele movimento de janelas das casas enfeitadas. Claro que é uma seleção que não tem muita cara, mas isso também contribui para esse afastamento.
A questão do comércio e da propaganda é uma discussão que já aconteceu lá atrás. Acho que começa no fim dos anos 1980 e começo dos anos 1990, quando as camisas começam a receber os primeiros patrocínios. Havia uma discussão forte: como vou usar a camisa do meu time com propaganda? Ao comprar a camisa do meu time, vou pagar para fazer propaganda de uma empresa que também patrocina o clube?
Essa discussão já aconteceu e, com o tempo, as pessoas se habituaram. Hoje você tem marcas estampadas nas costas da camisa, na frente, na manga, no calção, em tudo. Agora entram as bets, as apostas, tomando conta também das transmissões.
Durante muito tempo, em uma transmissão de futebol pela televisão, não havia comercial durante a partida. Aos poucos, eles foram entrando. Hoje até a pausa para hidratação, criada pela Fifa, também se torna um movimento para propaganda, para venda.
Esse movimento de comercialização em torno do futebol também afasta o torcedor, porque passa a impressão de que tudo é apenas comércio. Aquele amor à camisa, o famoso amor à camisa, as pessoas já não conseguem identificar muito bem.
D.M.: Para encerrar, se hoje a senhora escrevesse um novo capítulo de Com brasileiro, não há quem possa!, quais acontecimentos e transformações dessas últimas duas décadas não poderiam ficar de fora?
F.A.: Uma pergunta muito simples e muito fácil.
Pensando um pouco na discussão que os cronistas faziam no passado, acho que não poderia ficar de fora justamente essa questão dos jogadores que vão atuar no exterior: o confronto deles com outro futebol e como eles trazem isso de volta para o Brasil.
Seria importante tentar entender como eles se perdem ou se encontram nesse movimento de observar o outro, de se deixar envolver pelo outro, mas conseguir sair disso e voltar a entender quem são e de onde vieram.
Talvez eu tentasse entender esse movimento. Porque mudou muito. Nos anos 1950 e 1960, esses cronistas discutiam o futebol brasileiro e o futebol estrangeiro a partir de demonstrações mais pontuais, principalmente durante as Copas. Hoje, esse futebol estrangeiro virou cotidiano. Você convive com ele o tempo todo.
Então, como fazer esse movimento de entender quem eu sou, indo para lá e voltando para cá? Talvez fosse um pouco isso.
D.M.: Perfeito, professora. Muito obrigado pela sua disponibilidade. Acho que é um assunto que ainda vai render bastante nos próximos anos. Muito obrigado pela conversa.
F.A.: Eu que agradeço, Diego.